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RETRATO DE D. DOMINGOS XAVIER DE LIMA, 7.º MARQUÊS DE NISA (1765-1802)

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Retrato de D. Domingos Xavier de Lima, 7.º Marquês de Nisa (1765-1802)
Desenho de Domenico Pellegrini (1759-1840), de 1801 (28,20X33 cm)
BN D.15 V.

Desenho pertencente à Colecção da Biblioteca Nacional, cuja proveniência e data de incorporação se desconhecem. Foi analisado por Aires de Carvalho que o considerou atribuível a Domingos Sequeira (1768-1837)(1), e colocou a hipótese de se tratar do retrato de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, 1.º conde de Linhares (1755-1812)1, referências que voltaram a ser retomadas nos Tesouros da Biblioteca Nacional(2). No quadro do protagonismo social, político e artístico dos finais do século XVIII e princípios do século XIX, o relacionamento de Sequeira com Rodrigo de Sousa Coutinho induziu a que se presumisse representar o retrato desta destacada figura que foi Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, Presidente do Erário Régio e que deu ao artista assinalada protecção nomeando-o para dirigir as obras de pintura do Real Palácio da Ajuda.

A obra em apreço foi objecto de uma investigação recente por parte do autor deste texto na qual se admitia que a personalidade retratada seria D. Domingos Xavier de Lima, 7.º marquês de Niza (1765-1802). Esta proposta foi confirmada pelo recente aparecimento, numa Casa Leiloeira, de um retrato a óleo deste aristocrata, peça felizmente adquirida pelo Museu de Marinha, integrando agora os seus Fundos. Por outro lado, em face da proximidade entre estes dois retratos, confirma-se que o desenho da Biblioteca Nacional deve ser considerado como um estudo preparatório para o retrato a óleo que, entretanto, veio ao conhecimento público.

Factores artísticos e heráldicos contribuíram para a nova leitura quanto à identificação do retratado, coincidindo com a atribuída à pintura posteriormente divulgada. De facto, Domingos Sequeira viria a realizar alguns retratos de Rodrigo de Sousa Coutinho mas, no entanto, a dissemelhança entre estes e o desenho em análise é patente quer na própria envergadura física, quer na falta de correspondência fisionómica. Haveria que escrutinar que outras personalidades importantes teriam sido captadas nesta época: uma pesquisa nos desenhos da Colecção do Museu Nacional de Arte Antiga revelou entre eles a existência de um desenho (este da autoria de Sequeira) retratando o marquês de Nisa, cuja estatura e porte evidenciavam semelhanças com o desenho da Biblioteca Nacional, reforçando a convicção de que se tratava desta personalidade. Acresce que, na pintura e respectivo desenho preparatório, o retratado exibe a condecoração da Ordem de S. Januário a qual sabe-se ter sido atribuída ao 7.º marquês de Nisa e não ao 1.º conde de Linhares, sendo aquele ainda Cavaleiro da Ordem de Malta e condecorado com a Granada de Ouro das Campanhas do Roussilhão e da Catalunha.

Depois do seu regresso de Nápoles, como Comandante da Esquadra Real portuguesa que integrou as forças navais inglesas chefiadas pelo almirante Nelson, de imediato Domingos Xavier de Lima é nomeado Embaixador na corte de S. Petersburgo. Na viagem que faz para cumprir a sua missão diplomática efectua uma curta paragem na capital inglesa, onde veio a ser retratado.

A Domenico Pellegrini, segundo a informação de Cirilo(3), foi encomendado o retrato datado de 1801. Embora de origem veneziana, supõe-se que Pellegrini terá conhecido Sequeira em Roma, pois da sua biografia consta que recusou permanecer no atelier de Domenico Corvi, um dos mestres do pintor português naquela cidade. Em Roma terá tido contacto com Canova e a sua grande admiração por David tê-lo-á levado a Paris para o conhecer, embora mais tarde tivesse considerado que "nelle lhe pareceo achar mais sabedoria que génio"(4). Porém o seu fervor político terá recrudescido, o que viria a trazer-lhe dissabores.

É registado como tendo vindo para Portugal em 1803, onde facilmente encontra receptividade para encomendas na Família Real e nos meios cortesãos, ajudado certamente por Bartolozzi, chegado a Lisboa no ano anterior e cujo mérito profissional o credencia no ambiente artístico da época. Deste, aliás, realizará Pellegrini um interessante retrato a óleo (inacabado) datável de 1805, que hoje está no MNAA.

Logo em 1804 executa o retrato de D. João, Príncipe do Brasil, obra de fôlego à altura da dinâmica governativa que o Regente queria imprimir numa nova conjuntura histórica. O futuro 1.º conde da Barca, António de Araújo de Azevedo, para além de lhe comprar algumas pinturas, actividade de negociante de arte a que Pellegrini também se dedicava(5), pede-lhe, também nesse ano, que lhe faça o seu retrato ao tempo em que era Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Esta obra, hoje no MNAA, foi gravada também nesse ano por Gregório Francisco de Queirós.

Retratou abundantemente as elites aristocráticas da época, o duque de Cadaval (col. particular, Sintra), o marquês de Alorna e a sua família em 1805 (col. marquês de Fronteira), o conde de Anadia (hoje no MNAA), o barão de Quintela, a família Ratton, o grande negociante da época pombalina (col. visconde de Alcochete) e outros.

Considera-se que um dos retratos de maior qualidade que realizou (pois é referido como um pintor irregular(6)), terá sido o de Wellington em 1810, general inglês comandante dos exércitos que venceram as tropas napoleónicas em Portugal. O retrato foi primorosamente gravado por Bartollozzi nesse ano e a legenda apologética ressoa o espírito exaltado da época: "Terror hostium Lusitanae". Realiza um segundo retrato com outra inscrição laudatória, "Invicto Wellington Lusitania Grata", várias vezes utilizado para outras gravuras que queriam homenagear o general vitorioso. No entanto, nem mesmo esta comprovação de aparente fidelidade e de manifesto empenho artístico impediu que fosse expulso de Portugal por suspeita de simpatia para com a corrente política pró-francesa.

Quanto à composição do retrato, no desenho preparatório da BN e na pintura do Museu de Marinha, verifica-se que a sua morfologia é tomada directamente da estatuária romana e, mais precisamente, da escultura integrada nas colecções permanentes dos Museu Capitolino de Roma que representa Agripina Sentada(7)(v. il.). Esta peça, representando a mãe de Nero, foi considerada no princípio do século XVIII, pelo conde de Caylus, "le plus beau morceau" no conjunto das colecções daquele museu. A proximidade ou convívio com Canova permitiu a Pellegrini um contacto intenso quer com a escultura neoclássica, quer com a da Antiguidade. Sendo certo que para artistas estagiando em Roma este tipo de aprendizagem era comum, expressava-se em três vertentes: na cópia de modelos clássicos, na inspiração para as suas composições, muitas das quais teriam de apresentar a concurso nas academias, e na apropriação de estátuas para a mis-en-scène dos seus retratos. Assim, no retrato em apreço, vemos exemplificado este enquadramento na colocação do busto sobre a mesa ao lado do marquês de Nisa e onde Pellegrini, no retrato a óleo entretanto descoberto, registou a assinatura e a data. Este obra situa-se na tipologia do retrato moralizante em que se enfatiza a virtude ilustrada pelo culto da Antiguidade, pela leitura e pelo saber, de que é exemplo eloquente a atmosfera do salão e a colocação do globo terrestre ao lado direito da figura, a conotar a sua ligação às actividades navais.

Domingos Xavier de Lima, 7.º marquês de Nisa, morreria inesperadamente, no seu regresso a Portugal, em Königsberg a 30 de Junho de 1802(8), sem se conhecerem as causas, quando era previsível que viesse a ter uma carreira de sucesso fulgurante.

José de Monterroso Teixeira

Notas

1. V.- Catálogo…, n.º 47

2. V. Mendes p. 329-330

3. V. Machado p. 109

4. Idem , ibidem

5. V. Viterbo, I, p. 121

6. V. França, v. 1.

7. V. Haskell

8. V. Esparteiro, p. 117

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

CARVALHO, A. Aires de
Catálogo da Colecção de Desenhos. Lisboa: BN, 1977

ESPARTEIRO , António Marques
O almirante marquês de Nisa : Ed. Culturais da Marinha, 1987

FRANÇA, José Augusto
A arte em Portugal no séc. XIX. Lisboa: Bertrand, 1966

HASKELL, Francis ; PENNY, N.
Taste and the Antique. London: Yale, Univ. Press, 1994

HONOUR, Hugh
Neo-classicism. London: Penguin Books, 1991

MACHADO, Cirilo Volkmar
Colecção de memórias… Coimbra : Imprensa da Universidade, 1922

MENDES, Maria Valentina S., coord.
Tesouros da Biblioteca Nacional. Lisboa: INAPA, 1992

NORONHA, Eduardo
O marquês de Nisa. Porto: Emp. Literaria e Typographica, 1907

SOARES, Ernesto
Dicionário de iconografia portuguesa. Lisboa: Inst. para a Alta Cultura, 1947-60

VITERBO, Sousa
Notícia de alguns pintores portugueses…Lisboa : Tip. da Acad. Real das Ciências, 1903

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