BIBLIOTECA NACIONAL - TESOUROS
 
Cartografia Espólios Iconografia Impressos Manuscritos Música Periódicos
See this site in English
 
       

VEDUTE DI ROMA

Giovanni Battista Piranesi

Ampliar esta obra
VEDUTA DELL'ARCO DI TITO. - [1756-57]. - V. 2, est. [57]
In: Vedute di Roma / disegnata ed incise da Giambattista Piranesi. - [Roma] : presso l'autore, [de ca 1747 a 1778]. - 2 v. : totalmente il., 86 águas-fortes em f. dupla ; 53x40 cm
Adquirida, em publicação, para a Biblioteca da Real Mesa Censória em 1773, foi concluída com 135 gravuras não numeradas. - IPPAR. Galeria de Pintura do Rei D. Luís - Giovanni Battista Piranesi…Lisboa, 1993, p. 160. - V. 2 não apresenta rosto. - Encadernação da época
BN E.A. 295-96 A

Giovanni Battista Piranesi nasceu em Mogliano di Mestre, perto de Veneza, em 1720 e morreu em Roma em 1778. Foi arquitecto, arqueólogo, teórico, decorador de interiores, designer de mobiliário e, para além de ter inovado a veduta até ultrapassar o próprio género, é um dos maiores expoentes da Gravura europeia. A sua abordagem da Antiguidade, em termos estéticos e teóricos, teve uma imediata e duradoura influência no Neo-classicismo em toda a Europa e o seu génio criativo perpassou o século XIX, foi retomado pelo Surrealismo e perdura até à actualidade.

Filho de um construtor, aprendeu arquitectura, engenharia, recebeu formação em cenografia, em perspectiva com o gravador Carlo Zucchi e, ainda em Veneza, frequentou os círculos onde eram debatidas questões teóricas sobre arquitectura e canons clássicos, que lhe despertaram o gosto pela arqueologia e pela controvérsia. Deixou Veneza, onde florescia a produção de vedute em que Canaletto se evidenciava, e chegou a Roma em 1740 na comitiva do Embaixador de Veneza. Aí, foi assistente do gravador Vasi que, juntamente com Panini no campo da pintura, dominava o mercado das vistas de Roma. Na época, a Cidade dos Papas era passagem obrigatória do Grand Tour e, na cidade cosmopolita e efervescente das ideias das Luzes, Piranesi iria contactar artistas, escritores, intelectuais, arquitectos e patronos que afluíam de toda a Europa, nomeadamente de Inglaterra. Produz as suas primeiras vedute de Roma em pequeno formato para Guias de turistas e, em 1743, publica as suas primeiras doze águas-fortes, Prima parte di architettura e prospettive. Iniciar-se-ia, assim, uma carreira operosa de cerca de quarenta anos durante a qual produziu mais de mil pranchas publicadas em dezanove obras pela sua própria casa impressora.

Para além de uma das mais extraordinárias obras jamais produzidas a água-forte, Carceri (1.ª ed. 1749-50; 2.ª ed. 1761), destacaremos as Vedute di Roma (ca 1747-1778) produzidas em grande formato ao longo de toda a sua vida: constavam, à data da sua morte, de 135 matrizes e reflectem, na generalidade, a evolução artística e o percurso intelectual de Piranesi. O termo veduta aplica-se a uma pintura, desenho ou gravura representando uma cidade, um monumento, um lugar, com uma concepção acentuadamente topográfica. As vedute têm a sua origem nas peregrinações a Roma no século XVI e em Itália tornaram-se num género, conhecendo o seu apogeu no século das Luzes, nomeadamente em Veneza e em Roma. No entanto, seria Veneza a ver surgir os seus maiores inovadores: Canaletto, Piranesi e Guardi. Piranesi iria transformar a vista gravada para souvenir de turistas intelectuais e aristocratas "num sofisticado meio de comunicação erudita com grande carga de emocionalidade". Para além da sua formação e da tradição pictórica veneziana ligada ao esboceto e aos cambiantes atmosféricos em que o espírito barroco e a sofisticação do rococó encontraram terreno fértil, Piranesi situa-se no tempo da redescoberta da Antiguidade: Herculano em 1719 e Pompeia em 1748. Profícuas escavações arqueológicas foram realizadas em Itália e na Grécia e, em 1764, Winckelmann publica o importante trabalho teórico e de erudição, História da Arte na Antiguidade.

Por outro lado, a estética neo-clássica, reactiva à sobrecarga ornamental do rococó, dando primazia à linha sobre a cor, à simetria, e evitando a plasticidade do claro-escuro, abre uma brecha provocada pela tensão entre a razão e a sensibilidade, deixando escapar uma tendência "fantástica", herdeira da paisagem rocaille. Esta tendência vai ser validada pelo conceito de "Sublime" que no pensamento e no gosto de setecentos teve um grande impacto. Originário da Grécia clássica (Do Sublime, atribuído a Longinus, século I D.C?), o conceito foi, entre outros, amplamente retomado por Edmund Burke, que, em 1756, publica Philosophical enquiry into the origin of our ideas of the Sublime and the beautiful: diferindo do Belo, o Sublime, através de qualidades como o vasto, o irregular, o obscuro, o supra-humano, o colossal e induzindo o terror, instituía-se como evocador das mais intensas emoções. Apesar de criticado por Kant, o conceito teve uma profunda recepção na segunda metade do século, estimulando o interesse pelo excesso, pela violência da Natureza e abrindo caminho ao Romantismo.

Como todos os artistas de excepção, sensíveis às novas ideias e, simultaneamente ultrapassando-as, Piranesi reivindica também a "poética da ruína" decorrente do seu interesse pela arqueologia e metáfora adequada às novas teorias estéticas e filosóficas. Assim, praticará a veduta, directa ou de reconstituição fidedigna segundo fontes documentais, e a veduta ideata, onde a ruína servirá de matéria para a sua vertente apaixonada e trágica.

O exemplar de Vedute di Roma aqui apresentado foi comprado em 1773 (*), ainda em publicação, para a Biblioteca da Real Mesa Censória, que viria a constituir o fundo primitivo da Biblioteca Nacional, juntamente com mais onze obras, perfazendo dezasseis volumes: relativamente às obras piranesianas publicadas até esta data (segundo Wilton-Ely), estavam em falta as três primeiras e, da Opera varie, apenas chegou até nós Trofei d'Ottaviano Augusto. A obra, que foi aparecendo sucessivamente no mercado em estampas avulsa ou em grupo, revela o domínio das várias técnicas de composição e efeitos de impressão, sendo de notar que Piranesi retomara o verniz duro de Callot, então em desuso entre os gravadores da época. Nos anos 50, os seus interesses arqueológicos acentuaram o carácter topográfico da representação; a partir de finais dos anos 60, o declínio da protecção da família papal, os Rezzonico, e o acréscimo da procura, levam a um aumento do ritmo de produção da oficina com resultados, por vezes, irregulares. Por outro lado, a sua relação pictórica com a gravura liberta o seu estilo livre, cenográfico e impetuoso: modela pela luz e manipula a perspectiva, transborda a quadratura e o trabalho de gravação ocupa toda a prancha. As figuras humanas também sofrem uma evolução: de integradas e narrativas no seu espaço próprio, passam a atemporais elementos dinâmicos da composição, apenas esboçados, lembrando Callot e Della Bella.

A natureza e a arquitectura, a Roma antiga e a cidade do Grand Tour entrelaçam-se num organismo vivo e, portanto, sujeito à mudança e à morte: perspectiva trágica da condição humana, desprovida já dos instrumentos teóricos da razão e da ética das Luzes. A graduação exponencial do desmesurado, o melancólico, o terrífico e, finalmente, o trágico, conduzem ao confronto entre a fragilidade da razão e a força da natureza, fermento da idiossincrasia romântica que (em vão) tentaria uma certa forma de apaziguamento através do sentimento místico do encontro consigo mesmo em harmonia com uma natureza primordial.

Maria da Graça Garcia

(*) Bib. Pub. Arq. Distr. de Évora: BPADE COD. CXXVIII /2-17, por gentileza de Dra. Manuela Domingos

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

FOCILLON, Henri
Giovanni-Battista Piranesi. Paris: Henri Laurens, 1964

LARAN, Jean
L'estampe. Paris: P.U.F., 1969

MELOT, Michel
Prints: history of an art. Génève: Skira, 1981

SALDANHA, Nuno
"G. B. Piranesi e a poética da ruína no século XVIII". In Ana Mafalda Távora de Magalhães Barros - Giovanni Battista Piranesi: invenções, caprichos, arquitecturas: 1720-1778. Lisboa: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. P. 91-101

SASSOLI, Mário Gori
"Piranesi ou a dissolução da veduta". In ibidem. P. 103-113

WILTON-ELY, John
"Piranesi". In The dictionary of art. Ed. Jane Turner. New York: Grove, 1996

 

BIBLIOGRAFIA SELECCIONADA *

1993

BLOOMER, Jennifer
Architecture and the text: the (s)crypts of Joyce and Piranesi. New Haven: Yale University Press ca

DENISON, Cara D.
Exploring Rome: Piranesi and his contemporaries. [New York: Pierpont Morgan Library]

PORTUGAL. Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico. Galeria de Pintura do Rei D. Luís
Giovanni Battista Piranesi: invenções, caprichos, arquitecturas: 1720-1778. Coord. Ana Mafalda Távora de Magalhães Barros. Lisboa: Secretaria de Estado da Cultura
Contém bibliografia até 1992

WILTON-ELY, John
Piranesi as architect and designer. New York: Pierpont Morgan Library; New Haven: Yale University Press

1994

WILTON-ELY, John
Giovanni Battista Piranesi: the complete etchings. San Francisco: Alan Wofsy

FRANÇA. Bibliothèque nationale de France. Département des estampes et de la photographie
Oeuvre des Piranèse: tableau des différentes éditions conservées au Département des estampes et de la photographie. [Paris: BnF]

HOWE, Eunice D.
The Art of exaggeration: Piranesi's perspectives on Rome. [Los Angeles]: The Fisher Gallery, University of Southern

MARINI, Maurizio
Le vedute di Roma di Giovanni Battista Piranesi: il mondo antico e quello moderno…. 2. ed. riveduta e ampliata. Roma: Newton Compton

RAND, Richard
Two views of Italy: master prints by Canaletto and Piranesi. Hanover, N.H.: Hood Museum of Art, Dartmouth College

1997

PELLEGRINI, Franca
Tiepolo, Canaletto, Piranesi e altri incisioni venete del Settecento dei Musei civici di Padova. Padova: Il Poligrafo

1998

JATTA, Barbara
Piranesi e l'Aventino. Milano: Electa

PANZA, Pierluigi
Piranesi architetto. Milano: Guerini Studio

WILTON-ELY, John
Piranesi and Rome: a catalogue of selected engravings from Le Vedute di Roma and other archaeological, architectural and polemical series. London: Henry Sotheran

1999

GAVUZZO-STEWART, Silvia
Nelle Carceri di G.B. Piranesi. Leeds, UK: Northern Universities Press

LAROQUE, Didier
Le discours de Piranèse: l'ornement sublime et le suspens de l'architecture… Paris: Editions de la Passion

2000

FICACCI, Luigi
Giovanni Battista Piranesi: the complete etchings. Koln [etc.]: Taschen

RESCH, Raffaella
Piranesi: antichita romane, vedute di Roma: opere della Fondazione Antonio Mazzotta. Milano: Mazzotta

2001

FONDAZIONE ANTONIO MAZZOTTA
Giambattista Piranesi: Vedute di Roma. Milano: Mazzotta

ROSENFELD, Myra Nan
Opere varie by his own hand: Piranesi's visionary images of ancient and modern Rome and the significance of the McGill copy of the Opere varie. Montreal: McGill University Libraries

2002

STEMSHORN, Max
Vision Piranesi. Tübingen: Wasmuth

WILTON-ELY, John
Piranesi, Paestum & Soane. London: Azimuth

*Publicação a partir de 1993 (até 1992 v. PORTUGAL. Inst. Port. do Património Arq.) Fontes: OPAC das bibliotecas, BN (PT), BncR/SBN (IT), BNE (ES), BnF (FR), BL (UK), F.C.G.-Biblarte (PT), LC (USA) [consult. em 2-4 Mar. 2005]

  2003 Biblioteca Nacional Crédito e Direitos de Propriedade Intelectual