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Santo António, José de, fl. 1750-1770, Frei Acompanhamento de missas, sequencias, hymnos e mais cantochão : que he uso e costume acompanharem os orgãos da Real Basilica de Nossa Senhora e Santo António junto à Villa de Mafra / Fr. Joseph de Santo Antonio

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Santo António, José de, fl. 1750-1770, Frei
Acompanhamento de missas, sequencias, hymnos e mais cantochão : que he uso e costume acompanharem os orgãos da Real Basilica de Nossa Senhora e Santo António junto à Villa de Mafra / Fr. Joseph de Santo Antonio. - Lisboa : No Mosteiro de S. Vicente de Fora, 1761. - [22], 111 p. : not. mus. - 36 cm; Ass.: []//3, A5//4, A13//4, A-O//4
BN M.P. 538 A.

Ernesto Vieira [Vieira: 1900, II-272] refere apenas um Frei José de Santo António: Santo António (Frei José de). Na segunda metade do seculo XVIII imprimiu-se um pequeno folheto de 16 paginas com o seguinte titulo: "Elementos de Musica, por Frazenio de Soyto Jenaton. Lisboa: Na officina de Antonio Vicente da Silva. Anno de MDCCLXI.". O nome de Frazenio de Soyto Jenaton é perfeito annagramma de Frey José de Santo Antonio, por isso Innocencio da Silva, no "Diccionario Bibliographico", suppoz com bom fundamento ser este o verdadeiro nome do auctor d'aquelle folheto. Todavia nenhuma noticia pude até hoje obter de tal auctor. Possuo porém o folheto, apezar de ser a tal ponto raro que Innocencio só viu um exemplar d'elle na livraria do extinto convento de jesus; é um resumo insignificante, com os exemplos gravados muito toscamente.

Assim, nada mais se sabe sobre este autor para além dos dados que se podem extrair das suas obras.

O 'folheto' referido por Ernesto Vieira, que existe nos fundos da Biblioteca Nacional (BN) com a cota M.P. 598//7 V. (é o seu exemplar) apresenta na última página a Licença do Santo Officio, com data de 30 de Janeiro de 1761.

Existem mais duas referências, para obras impressas, a um autor com este nome: a que identifica o livro em estudo e a que identifica um Iman espiritual atractivo dos corações ao amor, uma obra publicada em 1726. Surge ainda um Frei José de Santo António associado à posse de duas obras do século XVI.

Nos manuscritos de música pode-se encontrar: uma 'Novena de N.ª Sr.ª do Rosário a 4 con violini, e basso', datado de 1755 (M.M. 262//3); dois 'Motetos a 4 Vozes O vos Omnes e Christus factus est' (sem data, M.M. 319//5); um 'Te Deum Laudamus […] a oito vozes concertado' (1767; M.M. 4956) em que a identificação do autor remete para os Acompanhamentos em estudo: 'Filho da Provincia d'Arrabida, e Mestre de Capella da Real Bazilica de Mafra'.

Temos assim um autor, o Padre Frei José de Santo António, 'Filho da Provincia da Arrabida, Notario Apostolico de S. Santidade, Examinador do Priorado do Crato, Primeiro Organista, e Mestre actual de Musica (Mestre de Capella) no Real Convento de Mafra', ao qual é sem dúvida atribuída a autoria dos Acompanhamentos e do Te Deum Laudamus; a utilização semelhante do Baixo Cifrado bem como a data permitem pensar que pode ser o autor da Novena, e ainda dos dois Motetos.

Existem em Mafra três exemplares da obra aqui apresentada (||41-12-41; ||41-12-40; |47-7-15); em Vila Viçosa existem 'folhas soltas que não chegaram a ser encadernadas e em parte se extraviaram'; não se encontra qualquer obra do autor na Ajuda, em Coimbra e Évora ou no Porto, nem no Fundo do Conde do Redondo, um exemplo dos fundos de música da BN, rico em Manuscritos do século XVIII. A cópia da BN reveste-se assim de particular valor. A obra está encadernada em pele, tendo na capa o escudo real gravado a ouro, encimando a palavra MAFRA.

A lombada apresenta flores gravadas a ouro entre os nervos. o conjunto das folhas apresenta um desenho floral (estampilhado).

O livro está em bom estado, apresentando apenas vestígios de utilização, nomeadamente por ter os cantos exteriores das folhas levemente manchados. Tem apenas a capa ligeiramente esfolada e alguns vestígios de humidade.

As três primeiras folhas contêm a dedicatória. Segue-se o índice, em que a primeira parte enumera toda as festas que têm música, e a segunda parte, as 'Advertências', tem a extrema importância de referir quantos órgãos acompanhavam quais festas, mencionando sem qualquer dúvida a intervenção dos seis órgãos.

Destaca-se aqui:

- o facto de o mesmo material musical servir para várias festas;
- a nota XXI, que dá indicações métricas;
- a nota XXIII, que dá indicações de execução, relacionadas com o espaço.

Segue-se depois o texto musical, que apresenta:

Sete Missas (ordinário); nenhuma tem Credo, o qual deveria ser sempre executado em cantochão; como ao longo da obra as festas vão diminuindo de importância, vão diminuindo de dimensão - a missa ferial consta apenas de Kyrie (curto), Sanctus (com Benedictus) e Agnus Dei.

Quatro Sequências, mas só três textos: Lauda Sion, Victimae Paschali Laudes e Veni Sancte Spiritus.

O próprio, contendo os Hymnos das Rezas Proprias, indicando no índice as Festas mudaveis, os Hymnos das Domingas e o Commûm dos Santos (da página 62 à 100); as 8 páginas seguintes contêm uma 'Nôa em a Festa da Ascençaõ, uma Trezena de Santo Antonio e uma Ladainha de Nossa Senhora, para os Sabbados'. As três últimas páginas contêm 'Acompanhamentos dos tons, e suas cadencias, para os Canticos de Magnificat, e Benedictus', com a curiosa chamada de atenção final para o tamanho dos versos, importante por dar uma clara indicação de execução.

O texto musical apresentado (não tem os textos latinos completos, apenas os incipit) consta das melodias gregorianas que são tomadas como baixos, sobre os quais vai ser proposta a harmonização, com as cifras colocadas por cima das notas. Ao contrário do que é referido no catálogo de Vila Viçosa, este material apresenta diferenças mínimas em relação ao Liber Usualis.

A harmonização é bastante simples, mas profusa, pois há sempre uma cifra para cada nota, com retardos frequentes. Pensando nos seis órgãos e num grupo coral grande (ou em grupos mais pequenos), e nesta abundância de harmonias, o tempo da execução deveria ser bastante lento (solene). E a utilização das melodias gregorianas, associada à simplicidade da harmonização e ao bom estado de conservação dos livros, leva a pensar que estas obras seriam executadas sem música, de memória, o que poderia facilitar a conjugação complexa de todo este material humano. Esta ideia é reforçada pelo facto de só existirem três exemplares em Mafra, quando deveriam ser seis, e pela simplicidade da cifra, que permitiria as fáceis transposições referidas na obra.

A obra parece reflectir uma prática musical activa e, principalmente, a utilização habitual dos órgãos, de 1 até 6, confirmando o carácter excepcional deste dispositivo.

Catarina Latino - Responsável do Centro de Estudos Musicológicos

 


BIBLIOGRAFIA

Vieira, Ernesto - Diccionario biographico de musicos portuguezes : historia e bibliographia da musica em Portugal. Lisboa : Typographia Mattos Moreira & Pinheiro, 1900

 

 

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