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TINOCO, João Nunes, ca. 1610-1689
[Plantas e desenhos para uma igreja]. - [ca. 1656]. - 11 f., enc. : papel, il., 11 desenhos ; 43 cm

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TINOCO, João Nunes, ca. 1610-1689 [Plantas e desenhos para uma igreja]. - [ca. 1656]. - 11 f., enc. : papel, il., 11 desenhos ; 43 cm
BN COD. 256

Trata-se de um conjunto de desenhos originais, com traço de vários autores, quatro deles assinados, representando elementos e mobiliário para decoração do interior de uma igreja, e dois desenhos para um jardim de forma triangular.

Segundo Ayres de Carvalho (1977), que confirma a hipótese já levantada por José António Moniz (1849-1917), a Igreja em questão seria a Igreja do convento de Nossa Senhora da Divina Providência, dos padres Teatinos; esta identificação tem, no entanto, vindo a ser posta em causa (Paulo Varela Gomes, 1992).

Dois desenhos estão assinados por João Nunes Tinoco, nomeadamente aquele que representa um altar com tribuna (f. 4) e o desenho seguinte, invulgar corte de uma capela, tendo ao lado o projecto de um retábulo (f. 5).

João Nunes Tinoco era filho do arquitecto Pedro Nunes Tinoco (? - 1641), patriarca de uma família de arquitectos que desempenharam um importantíssimo papel no desenvolvimento da arquitectura portuguesa nos séculos XVII e XVIII. João Nunes Tinoco foi nomeado para um dos Três lugares de aprender a Arquitectura nos anos de 1630-31; em 1641 era-lhe confiado o cargo de arquitecto das obras de São Vicente de Fora, por morte de seu pai, e deteve igualmente o cargo de arquitecto da Casa das Rainhas, instituído em 1665 por D. Luísa de Gusmão.

O seu intenso percurso profissional desenvolve-se essencialmente entre os anos de 1652 e 1689, contemplando dezenas de projectos e obras, sobretudo na área de Lisboa, e elege-o como um dos primeiros arquitectos portugueses que experimentam a estética barroca: desenhou, em 1661 o sacrário da Igreja de Santa Justa, onde aparecem pela primeira vez colunas torsas, de grande efeito cénico, repetido em dezenas de retábulos pelo norte do país, os Conventos de S. Francisco da Cidade e de S. Francisco de Xabregas, o Convento da Graça, a Igreja de Santa Teresa das Carmelitas Descalças de Carnide, etc, mas também se salienta a edificação do seminário jesuíta de Santarém, na década de 70. Segundo Paulo Varela Gomes (1998), terá colaborado, ainda que episodicamente, nas obras de Santa Engrácia, atribuídas oficialmente ao arquitecto João Antunes (?-1712), seu discípulo.

Outros dois desenhos, estudos prévios para um retábulo de talha (?), são da autoria do artífice da Coroa António Vaz de Crasto (16--), "entalhador e emsablador de Sua Magestade", que assinou e datou (1605) as duas propostas alternativas (f. 1 e 2), e que por volta desse ano trabalhava para os Teatinos.

O retábulo em madeira foi-se afirmando em Portugal sobretudo a partir do séc. XVII como um elemento vital do interior da igreja, tornando-se fachada, "estrutura de suporte, que serve de enquadramento a imagens pintadas ou esculpidas, envolvidas em adornos geométricos ou naturalistas, e em coloridos que fingem a matéria que as formou" (Ilídio Salteiro, 1989). Muito frequentemente surge o "retábulo-moldura", a enquadrar com motivos arquitectónicos, de fachada, como é o caso destes desenhos, a pintura em tela.

Este álbum, constituído por 11 desenhos formando página inteira, (na realidade 14 desenhos e fragmentos, com numeração própria), resultou, aparentemente, da reunião, em época posterior, de desenhos avulsos, de técnica e qualidade diferenciada, a saber: retábulo a sépia com aguada (f. 1), o mesmo retábulo, na mesma técnica, mas com outra proposta formal (f. 2); desenho desdobrável, a sépia com aguada, de lampadário (f. 3); altar com tribuna, a aguada e aguarela (f. 4); corte de capela e retábulo, a sépia com aguada (dois desenhos colados sobre f. 5); sacrário (a tinta-da-china) e turíbulos, a sépia e lápis (três desenhos colados sobre f. 6); relicário de pau preto, em f. desdobr., aguarelado (f. 7); tocheiro a sépia com aguada a azul, picotado (f. 8) planta triangular de jardim, a tinta-da-china (f. 10), e "Planta do Jardim q esta no sitio do Convento da Divina Providencia", aguarela, desdobr. (f. 11).

A encadernação, muito provavelmente já do séc. XIX, é feita de pastas de cartão revestidas a pele castanha, marmoreada

Ayres de Carvalho (1977) considera que o esboço arquitectónico anónimo, representando o alçado, corte e planta de um convento, actualmente a integrar as colecções da Área de Iconografia (D. 123 A.), teria pertencido ao presente conjunto que forma o COD. 256.

Outros originais identificados na BN: COD. 5166 (João Nunes Tinoco), e D. 27 R. (António Vaz de Crasto)

Ana Cristina de Santana Silva - Área de Manuscritos


BIBLIOGRAFIA

Bonifácio, Horácio Pereira - "Tinoco, família". Dicionário da Arte Barroca em Portugal. Lisboa: Presença, 1989

Carvalho, Ayres de

- As obras de Santa Engrácia e os seus artistas. Lisboa: ANBA, 1971
- Catálogo da Colecção de Desenhos [da Biblioteca Nacional]. Lisboa: BN, 1977

Gomes, Paulo Varela

- Arquitectura barroca em Portugal. Lisboa: INCM, 1987
- A confissão de Cyrillo: estudos de história da arte e da arquitectura. Lisboa: Hiena, 1992
- Arquitectura, religião e política em Portugal no séc. XVIII: a planta centralizada. Porto: FAUP, 2001

Moniz, José António - Inventario [da] secção XIII: manuscriptos. Lisboa, BN, 1896

Salteiro, Ilídio - "Retábulo". Dicionário da Arte Barroca em Portugal. Lisboa: Presença, 1989

Santos, Reinaldo dos - "Plantas e Desenhos Barrocos". Belas Artes: revista e boletim da Academia Nacional de Belas Artes. Lisboa: Academia Nacional de Belas-Artes. S.2, 2, 1950

Viterbo, Sousa - Dicionário histórico e documental dos arquitectos, engenheiros e construtores portugueses. Pref. Pedro Dias. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988. 3 vol. Edição fac-similada de Lisboa: Imprensa Nacional, 1899-1920

 

 
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