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O ATLAS UNIVERSAL ATRIBUÍDO A FERNÃO VAZ DOURADO, DE C. 1576. 

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BN IL. 171 Atlas atribuído ao cartógrafo Fernão Vaz Dourado. - Códice iluminado, contendo 17 plantas para além de tábuas de declinação. 39 cm.

Sobre o cartógrafo Fernão Vaz Dourado (c.1520-c.1580) existem poucos e inseguros dados e muito do que encontramos divulgado são meras suposições. De concreto, apenas chegaram até nós cinco atlas primorosamente iluminados, com datas entre 1568 e 1580, cujo autor se identifica como Fernão Vaz Dourado e, em três deles, com o título de "Fronteiro destas partes da India". Dois dos atlas foram desenhados em Goa, e outros dois, provavelmente também, pelas informações náuticas que incluem se referirem ao sub-continente indiano. O quinto poderá ter sido elaborado em Lisboa, a ser verdade que o autor tenha alguma vez estado em Portugal. A Dourado andou também atribuído o atlas universal de 20 cartas, complementar do Livro de Marinharia de João de Lisboa (c.1560), considerando-se, actualmente, que apenas um fragmento de um mapa figurando o Índico ocidental é também de sua autoria.

Em busca de Fernão e da família Dourado encontraram os biógrafos um Fernão Vaz Dourado ferido no celebrado segundo cerco de Diu, em 1546, e um Fernão Dourado em viagens no Índico oriental, em 1543-1544 ou em 1547. Supondo que o militar, o navegador-comerciante, e o cartógrafo-iluminador seja o mesmo homem, ele poderia ser filho de Francisco Dourado, moço de câmara, que em 1513 embarcou em Lisboa para a Índia, e lá casou, em 1519. Levantam-se ainda as hipóteses de a mãe ser indiana, de Fernão ter estudado em Goa, próximo do círculo do Colégio jesuíta de São Paulo ou, pelo contrário, ter vindo jovem a Portugal e estudado na Universidade, em Lisboa ou já em Coimbra, e de ter voltado à Corte, por breve período, no fim da vida, a acompanhar o vice-rei D. Luís de Ataíde, de quem era protegido. Tudo são suposições como é o Iluminado 171, da Biblioteca Nacional, em Lisboa, ser um atlas da sua autoria. Mas, com quase toda a certeza, trata-se de um sexto atlas de Fernão Vaz Dourado.


"Tudo é confuso e misterioso quanto à história deste atlas" - referem Armando Cortesão e A. Teixeira da Mota, que, com o 2º Visconde de Santarém foram os maiores estudiosos do autor e da sua obra. Santarém atribuiu o atlas ao cartógrafo João Freire e datou-o de 1546; os autores dos Portugaliae Monumenta Cartographica, na esteira do Conde de Ficalho e de Ernesto de Vasconcellos inscrevem-no com segurança entre os trabalhos de Dourado e dizem-no elaborado entre 1575 e 1580, provavelmente c.1576.


O volume terá dado entrada na Biblioteca Nacional durante a I República vindo das colecções reais do Palácio das Necessidades. D. Luís e D. Carlos tiveram pelo atlas uma particular atenção. O primeiro, a quem se reconhecem dotes no campo da pintura, copiou alguns dos mapas; o segundo mandou fazer um fac-símile manuscrito, exibido na primeira grande exposição nacional de cartografia, organizada pela Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1903-1904. Antes, no final dos anos 40 do século XIX, sabemos ter o atlas feito parte das bibliotecas do senhor Ferron, sócio da Société de Géographie de Paris, e de João Martens Ferrão Castello Branco, exilado miguelista radicado em Paris, como o Visconde de Santarém, dedicando este último à obra uma primeira e detalhada análise. Como e quando chegou a Paris e como e quando chegou ou voltou a Portugal está por saber.


O códice encadernado é constituído por 20 fólios de pergaminho, de 38,5x51,5 cm, dobrados ao meio. Não tem frontispício, não apresenta autoria ou data e compõe-se de 1 fólio com elementos cosmográficos, 2 com tábuas de declinação solar e 17 onde se figuram cartas geográficas. Os elementos cosmográficos de interesse náutico foram detalhadamente estudados por Luís de Albuquerque na edição fac-similada do atlas, publicada pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, em 1991.


Os 17 mapas que constituem o atlas surgem ao leitor numa sequência geográfica, como se de uma viagem de circum-navegação se tratasse. A superfície da Terra observa-se através de largas e sucessivas janelas. Desde o Estreito de Magalhães são percorridos os litorais ocidentais do Oceano Atlântico até ao extremo Norte do Canadá, "saltando" o Brasil, que surgirá mais tarde, como escala na viagem Europa-Oriente. Seguem-se as costas ocidentais do Atlântico Norte, da Escandinávia à Península Ibérica, o Mediterrâneo (Ocidental e Oriental), a África ocidental, o Brasil, a África meridional, Madagáscar e a África oriental, o Índico ocidental e oriental, os litorais orientais da Ásia e os arquipélagos da Oceania, o Pacífico e, finalmente, os litorais ocidentais do continente americano.


Esta apresentação de mapas é em tudo semelhante às que encontramos nos atlas de Vaz Dourado, datados de 1570 e de 1575, eles também com 17 cartas. Aí, apenas se altera ligeiramente a localização das cartas referentes ao Brasil e às costas da Califórnia. A apresentação dos mapas dos três outros atlas de Dourado, em especial os que apresentam áreas particulares, de grande escala, terão outras leituras explicativas.


A esta sequência geográfica liga-se uma pensada construção geométrica que subjaz no estabelecimento das "janelas" e na sua própria construção interna. Quando pensamos estar perante mapas de escalas distintas, atendendo aos valores de latitudes que se apresentam, concluímos que são sempre, aproximadamente, rectângulos de 40º de latitude por 50º de longitude, apesar desta última coordenada não estar indicada e de a sua apreciação ser difícil.


Oito dos mapas apresentam na base ou no topo a linha do Equador, prolongando-se para Norte ou para Sul perto de 40º de latitude. Dos restantes, dois têm por limite Norte o Círculo Polar Árctico, e outros dois "partem", respectivamente, do Círculo Polar Antárctico e do Trópico de Capricórnio. As excepções a esta geometrização do espaço mundial respeitam a áreas menos conhecidas: o litoral ocidental e o extremo Nordeste da América do Norte, o extremo Norte da Europa e o Pacífico. Nestes casos, os 40º de latitude contam-se entre paralelos aparentemente mais aleatórios. Haveria que estender estes exercícios a outros atlas coevos, portugueses e estrangeiros, analisando igualmente desenhos de costa, inventariando topónimos e elementos iconográficos e retendo a sua repartição espacial.


Porém, os mapas têm sido analisados quase exclusivamente a partir da toponímia inscrita e da configuração e desenho das ilhas e dos litorais. Na maior parte dos estudos, o objectivo último foi a relação entre esses aspectos e os episódios da história política e militar, como demonstração da prioridade dos portugueses na descoberta e ocupação de territórios não europeus. A hipótese de que as novas imagens cartográficas portuguesas se revelem fontes determinantes para a cartografia impressa da Europa do Norte e, mesmo, que transmitam elementos iconográficos originais e exóticos, mereceriam um estudo comparativo mais minucioso. No caso de Vaz Dourado, a quem são atribuídas inovadoras imagens cartográficas de Ceilão e do arquipélago japonês, algumas dessas análises foram já realizadas.


Tratando-se de cartografia de luxo ou de aparato, o seu processo de construção parece dever mais às regras da pintura e, concretamente, da iluminura, que da cartografia prática. O cartógrafo-iluminador terá sido antes um iluminador-cartógrafo ou, o que é mais provável, vários terão sido os técnicos e artistas implicados nas distintas fases de elaboração dos mapas. Aliás, bastaria reparar na vasta produção atribuída a Vaz Dourado para se concluir que só dificilmente um único profissional, do qual não são conhecidos trabalhos anteriores a 1568, em escassos 12 anos, poderia desenhar e pintar 115 folhas de pergaminho, 98 das quais com minuciosos mapas, ricamente decorados.


Só uma escola com experiência, oficinas e artistas em actividade, poderia responder a tais encomendas. Mas pouco se sabe sobre a existência dessa comunidade em Goa, assim como de todo o processo de construção dos mapas: desde a proveniência e fabrico do pergaminho e das tintas, aos tipos de fontes consultados e à sua origem (ocidentais e orientais, manuscritas e impressas), assim como dos métodos utilizados no desenho do fundo das cartas e no estabelecimento da sua coloração e ainda sobre a inclusão de elementos iconográficos.


Ao nome de Vaz Dourado têm sido associados os de Diogo Botelho Pereira, cuja obra se encontra perdida, e de Lázaro Luís, autor do famoso atlas de 1563, cujas cartas tantas semelhanças apresentam com as de Dourado, discutindo-se a mútua e estreita influência. Os três cartógrafos, provavelmente, nasceram e formaram-se na Índia portuguesa, representando os seus mapas o que de melhor em cartografia, aí se produziu na segunda metade do século XVI. Porém, há notícias documentais sobre a actividade cartográfica portuguesa no Oriente desde a década de 30, com Heitor de Coimbra, a qual se prolonga com Luís do Rego (c.1545), Pedro de Ataíde (1596), Mateus do Rego, "mestiço de Goa" (1601) e, finalmente, com o luso-malaio Manuel Godinho de Erédia (c.1560-1623), natural de Malaca (como Pedro de Ataíde), um dos mais brilhantes artistas da "época áurea" da cartografia portuguesa.


Mas, os mapas de Vaz Dourado não devem ser apenas comparados com os dos seus contemporâneos que trabalhavam no Oriente e com as fontes cartográficas orientais, donde podem chegar materiais e cores, informações geográficas ou elementos iconográficos. Os protótipos das cartas portuguesas realizadas na metrópole, em originais, cópias ou variantes, chegavam também periodicamente a Goa, daí as semelhanças possíveis de encontrar, cotejando Dourado com os mapas da última fase de Lopo Homem, os atlas de Diogo Homem (1561 e 1568) ou de Sebastião Lopes (c. 1565). Mas será também de considerar a influência da cartografia italiana e da cartografia espanhola.


A recepção e difusão das imagens de Vaz Dourado, em especial as do Oriente, atendendo à sua originalidade e qualidade estética, onde ressaltam os elementos decorativos renascentistas, fez-se sentir com alguma rapidez na cartografia impressa do Norte da Europa, como é o caso da inserta na obra de Linschoten ou a difundida nas edições da obra de Ortelius. A partir dessas imagens se elaboraram novas versões, impressas ou manuscritas, por todo o Mundo.

João Carlos Garcia - Professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Letras da UP

 

BIBLIOGRAFIA

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