BIBLIOTECA NACIONAL - TESOUROS
 
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TRANSCRIÇÃO DO LEQUE

[LADO A]

Se um leque não fosse um inseparável companheiro de uma senhora, quasi um confidente, testemunha dos pensamentos de cada instante; se juntar a recordação de um ente importuno a esse confidente não fosse torná-lo menos querido, escreveria neste o meu nome.

Deviam cristalizar em pérolas as lágrimas que nos caem sobre os espinhos que atapetam a estrada da vida. Se assim fosse não caberiam em ornatos no seu leque as que de dor me tem feito derramar, Celeste.

Chorar, choram todos na vida. - Felizes os que podem secar as lágrimas dolorosas com a esperança ao menos de uma grande felicidade. É por isso que eu me sinto feliz por ter sofrido por si, todas as vezes que o seu formosíssimo sorriso, vem, claro e meigo evaporar as lágrimas da saudade e da dúvida, como o sol evapora após a aurora as gotas cristalinas do orvalho. Aurora esplêndida e esperançosa é com efeito o seu sorriso tão meigo e tão acariciador que não há tristeza que se não espalhe ao vê-lo, que não há felicidade que não sonhe ao namorá-lo. Sorriso luminoso que me tem feito pensar animado no futuro, a horas em que a noite começava a cerrar-se no meu espírito, sem quasi esperanças de alvorada. Eu tenho passado triste e infeliz muita noite escura, silenciosa, imensas destas noites em que o céu negro e profundo simboliza o infinito da desgraça e em que os astros parecem ser espíritos condenados que divagam cintilando com soluços de luz. - Destas as mais dolorosas e por isso as mais vastas - estavam todas povoadas pela sua recordação. Vagava eu até manhã maldizendo esta mocidade ardente e rica de seiva, em mim mais pronta em chorar por uma decepção que em sorrir por uma esperança. Ao nascer do dia parava silencioso a ver a luz espalhar-se serena pelos horizontes, as nuvens dourarem-se de reflexos, e os campos encherem-se das melodias alegres, esperançosas e ligeiras da vida - era quasi sempre fora de Lisboa - e não sei que vaga promessa de felicidade tinha aquele crescer da luz que caminhava para mim, não sei que carícias havia naquela velada claridade da manhã, que sempre por mais dolorosa que houvesse sido a noite, me reverdecia no espírito a esperança de melhor vida. É assim o seu sorriso - fogem as sombras diante dele - que são ondas de claridade que parecem sair de seus lábios - e quando me pergunta sorrindo - porque a contemplo estático, enamorado, não sei que futuro de ventura antevejo, que me faz crer no amor, na mocidade e no realizar do meu ideal e dos meus sonhos.

Agosto 1868 Jaime Batalha Reis


ADORADA CELESTE E BATALHA REIS

1. Sabes amiguinha! A música era a minha antiga paixão - pois desde que te amo gosto mais que dantes das melodias que sempre me impressionaram tanto. É que na música o sentimento parece que se comunica de alma a alma. Eu sinto em mim como que o acordar de todos os meus instintos bons, de todos os meus mais belos sentimentos - e no meu espírito não há decerto mais belo sentimento que o
meu amor por ti. Depois toda a minha vida está para mim representada em melodias. Assim quando alguma hoje me transporta ao passado gosto de que essa viagem ao que fui seja feita com a tua recordação: parece-me que te entrego assim toda aminha existência. Sabes: desses tempos sobretudo nos primeiros - as imagens que mais tenho no espírito são as da minha mãe e minha irmã - ora eu sinto-me muito feliz em unir a tua recordação à lembrança destes dois espíritos de mulheres que foram a verdadeira afeição da minha infância - reúno assim quasi a família das minhas afeições, evocada sempre pelas músicas que oiço.


TONTA CELESTE ASSEVERO QUE É FALSO

Conheço eu então quanto te amo Celeste, porque és tu que bem conheço que mais adoro nesse grupo. Porque é desse grupo a ti que eu mais sentiria perder - a tal ponto que pelos outros choraria, por ti seria tão infeliz que talvez não pudesse com a dor. Há músicas que para mim têm o poder duma evocação. Logo que as oiço juntam no meu espírito as cenas da minha curta vida. - Pois bem há só uma imagem que elas todas representam, há só um pensamento que em todas essas cenas aparece é o teu Celeste.

Jaime Batalha Reis


LINDA CELESTE JURO QUE É VERDADE

2. Mandaste-me um bilhete da tua Mamã Amiguinha. Como eu gosto que aos nossos amores ande ligada a santa recordação da tua Mamã minha Celeste. Parece que isto mais o santifica. Esse bilhete assim mandado por ti numa carta em que me dizias que me amavas e em que me chamavas teu Noivo vem consagrar a nossa afeição. Parece que é a tua Mamã própria que nos une as mãos e que nos faz Esposos e que sente que é isso a felicidade da sua Celeste. Por isso eu seria o mais infeliz dos homens se tu não fosses feliz quando minha Mulher. Aquele bilhete que eu beijei - como tenho beijado a mão de minha Mãe é para mim uma benção que nos unia minha Celeste: que te une ao teu

Jaime


A CELESTE É MUITO MÁ PROTESTO

Eu tenho inveja e ciúme dos que tu admiras e dos que te impressionam minha Celeste. Quisera ser o autor do livro de que tu gostas, o compositor da música que te comove, o actor que te entusiasma. Queria que todos os teus olhares fossem para mim, que o meu amor te pudesse fazer orgulhosa, e que eu fizesse uma obra notável entre as da humanidade para ta oferecer e para te dizer que o teu amor me a inspirava. Infelizmente são loucuras em mim estas aspirações. Eu só posso amar-te mas isso como ninguém poderá mais.

Fevereiro 69 Jaime Batalha Reis


Neste leque uniu uma senhora os nossos dois nomes. Quis eu apagar o meu por julgar que lhe seria desagradável o vê-lo. Lembro-me que mo impediu zangando-se quando o fiz. Foi esta uma das maiores alegrias deste meu íntimo romance. Com que alvoroço se não recolhem os primeiros sinais de uma simpatia partilhada! Todos andamos na terra em busca da felicidade. Para mim sei que está esta no seu amor, Celeste. - Sou, assim, feliz. - Não é verdade?

Agosto 1868


Muitas vezes interrompi as minhas leituras e o meu estudo para beijar este leque como quem beija uma relíquia santa. Deixo-o hoje com saudades. Que ele a faça ao menos recordar do muito e muito que a amo.

Setembro 1868 Jaime Batalha Reis



[LADO B1]

Não disse uma vez que se amasse julgaria fazendo alguém seu confidente dar aos outros uma parte do seu amor? - Ninguém sabe que tenho o seu leque e que estou nele escrevendo o que encontro no meu coração de mais puro, de mais santo, de mais inocente, de mais delicado, de mais belo - e assim de mais digno de si Celeste. Deixo pois que este leque, seu companheiro de tantos dias, seja o nosso confidente; e que aos pensamentos que a preocupavam quando encostava as varetas brancas e perfumadas ao seu rosto, se misturem agora algumas estrofes do poema da minha mocidade. - Deixe assim que lhe diga nele com a franqueza dos que têm a consciência de não enganar o que eu sinto por si de amor e adoração. - E quando alguma vez abrir o seu leque encontrará bem ingénua e bem franca a mais bela porção do sentir da minha vida. A mais bela? - A única bela decerto.

Nós andamos todos na terra procurando a verdade nas ciências, buscando o belo na arte, edificando o justo na moral. - Um dia tudo isto nos aparece reunido numa só resultante que se chama a felicidade. - Esta realiza-se aos 20 anos no amor. - O amor é como que a luz que vem colorir as flores e infinitizar o firmamento, - é como as harmonias que ecoam no tempo fazendo palpitar as esculturas ao ritmo da prece - É alguma coisa que transforma, que alinda, que diviniza, que acorda na natureza melodias ignoradas, e no espírito delicadezas latentes. - O amor é uma divindade que tem por templo a Família que ele consagra, e que há-de um dia - formoso ideal do Cristo - dilatar-se daí à humanidade. É luz, o amor a que não resistem sombras. Ao erguer-se no espírito desaparece o homem para ficar apenas o anjo. - É por isso que tem alguma razão, Celeste - quando me dá esse nome: - desde que a conheço e desde que a amo há com efeito em mim alguma coisa da bondade divina. Como havia eu de a merecer se assim não fosse? Não há aspiração grande e nobre que eu não tenha desde que a adoro: - as religiões ordenam-nos a virtude, para com ela nos aproximarmos de Deus numa outra vida - a minha religião é o seu amor, o seu espírito é a minha divindade. - E eu desejo ser sábio, ser bom, ser justo, ser perfeito, para um dia lhe poder dizer: - Vê Celeste o seu amor foi para mim, mais brilhante Sol, - com ele esclareci a minha inteligência, com ele tornei bom o meu coração. - Forte com o seu amor, forte com a esperança de um olhar ou de um sorriso seu, homem algum desejava ir mais avante. Hoje só posso na minha adoração oferecer-lhe o meu pobre espírito - amanhã quisera no meu contínuo trabalho conquistar o mundo para lho dar. - Fez bem em me indicar no firmamento Sirius dizendo - "sou eu" - o seu amor é um astro que vaga cheio de luz no firmamento infinito. É um ideal que só se conquista subindo nela porque como todos os ideais só existe bem alto nas regiões esplêndidas.

Setembro 1868* Jaime Batalha Reis

* Existe no Espólio o rascunho do texto iniciado "Não disse uma vez [...]" com data de Agosto de 1867, incluindo pequenas variantes.


Minha Celeste posso enfim dar-te este nome. Porque é meu o teu espírito e porque há um casamento que já se não separa: o das nossas almas. É para mim a suprema felicidade escrever no teu leque onde se lêem as primeiras aspirações do meu amor estas palavras em que te trato por tu, como os que se amam para toda a vida e em que te chamo minha Celeste, minha Esposa. É a religião que existe nas almas, o culto mais elevado. Em nome dela e em satisfação completa pelo menos dos meus ideais, é que as nossas almas se uniram, e que nós que caminhamos ainda separados pelo mundo nos chamamos Noivos, Esposos. Este leque contém a história do meu coração desde que te conheci: primeiro as hesitações e as horas da incerteza: a cristalização de algumas lágrimas choradas por ti. Depois tudo que se passava na alma de ideais, de aspirações à proporção que o coração e o amor me acordava, todas as energias do espírito. E tão belo o momento em que as nossas vistas longo tempo presas a um raio pequeno adquirem como que mais força, e vêem ante si os horizontes aumentarem, as nuvens perderem-se espalhadas por um novo sol! Com o teu amor minha Celeste parecia-me que o mundo todo era pequeno campo para as minhas obras, que havia mais luz na minha inteligência e mais sentimento e que por cima de tudo pairava não sei que música divina e íntima. Achei tão belo e tão santo o amor que para ti me chamava que me achei melhor e mais justo e que a minha alma que até aí mais compreendia o belo, começou a apreciar o bem. Este teu leque pois que contém todos estes momentos notados devia também possuir uma última frase registando onde se visse: - Celeste amo-te hoje mais que nunca porque se é meu o teu amor é também minha a história do teu sentimento e do teu pensar e eu amo hoje a tua alma como se a houvesse acompanhado desde o berço. É que nem de outro modo eu posso perceber a existência de dois espíritos unidos e amando-se com um amor imenso - o que eu sinto por ti. Eu pensava muitas vezes triste que só bem tarde te havia conhecido Celeste, e que o teu coração me não pertencia no seu passado - tenho querido que as nossas vidas caminhassem sempre ligadas e que não houvesse pensamento num que a outro não acompanhasse. Hoje parece-me que sempre te amei e que tu sempre me procuraste pelo mundo e que o teu amor, incerto às vezes, achou em mim o seu Esposo. Hoje dá-me a suprema felicidade esta ideia. É que a confiança que hoje existe nos nossos espíritos e o grande afecto que vai neles, reflectiu não sei que luz para o passado iluminando-o todo. Não é verdade que só aí esclarece esperanças sem esclarecer nem uma saudade? - E não é verdade que essas esperanças têm hoje a sua realização? Quanto a mim o amor que sinto por ti minha Celeste tem-me feito verdadeiras revelações. E eu julguei que havia amado antes de te conhecer e agora vejo que tinha unicamente procurado o amor. Até que o encontrei em ti. Assim já vês que o meu passado é também o teu; e que os raios de luz com que agora esclarecemos a nossa vida para um ao outro a entregarmos, colocam em todo o meu passado a tua imagem que eu entrevia nos meus sonhos quando fantasiava o ideal. Esse ideal hoje sabes tu bem minha Celeste de que ele se compõe. Encerra-se entre as paredes da nossa futura casa, quando eu puder destinar a minha vida, a adorar-te e a sentir-me feliz na tua felicidade, quando as portas da nossa morada fecharem um paraíso de duas adorações, de duas vontades irmãs, quando eu trabalhar sob a tua inspiração, e deixar no meu trabalho, se sair belo, uma poesia que será toda tua. É justo que o Sol que me viu tantas vezes aborrecido insensível, que depois me aparecia - quando eu o esperava para enxugar as minhas lágrimas, possa um dia abençoar-nos a ambos vendo-nos juntos e amantes, a observá-lo uma manhã da nossa casinha de Esposos. Não és a minha Celeste como eu sou o teu Jaime.

Março 1869


[LADO B2]

Lenda: a Princesa Sinfronia tinha um leque singelo e elegante formado por varetas lisas de uma madeira branca e aromática. Era esse leque o seu companheiro inseparável: umas vezes agitava-o brandamente ocultando com ele quasi o rosto formosíssimo; - outras nas horas de devaneio em que o pensamento procurava alguma recordação suave ou triste, encostava-o aos lábios e beijava-o com o brando perfume do seu hálito. A Princesa era desdenhosa e dizia por vezes que não acreditava no amor. No mesmo país vivia Pero um destes espíritos simples e francos que acreditam no que sentem e que sentem com o entusiasmo da mocidade. Adorava ele a Princesa. Um dia, como temesse os sorrisos da bela desdenhosa consultou uma Feiticeira para que lhe desse remédio com que vencesse a insensível. A Feiticeira disse-lhe que escrevesse numa das varetas do leque da princesa a frase: Amo-te. Costumava ela abanar-se pensando em não sei que ideal bem contrário ao que dizia sentir. Uma noite o vento agitado pelo leque afagou-lhe o rosto murmurando: Amo-te. As letras traçadas tinham palpitado cheias de vida e amor ondulando o ar com as melodias do culto que elas simbolizavam. E cada vez que a Princesa pretendia mentir ao coração mostrando-se insensível e fria, o leque agitava-se e a brisa segredava-lhe: Amo-te! Amo-te! E as flores pareciam mais vivas e perfumadas e o ar suave de Primavera dava felicidade ao respirar. A Princesa foi pouco a pouco deixando que essa frase sempre divina e sublime lhe afagasse os ouvidos, e começou nela a distinguir os sons de uma voz conhecida que um dia lhe jurara em vão um amor sincero e leal. O nome de Pero foi-se pouco a pouco misturando às palavras murmuradas pela viração. Depois...

Ignora-se bem circunstanciadamente o fim desta história. A aragem perfumada que cantava em redor da Princesa o hino puríssimo de um amor sincero, convencia[-a] de que na terra existe pelo menos uma alma boa e ingénua que não mentia ao confessar os seus sentimentos. O que todavia parece mais provável é que ela se ria impassível e desdenhosa ao pensar no seu constante namorado, para escutar em seguida de novo o inseparável leque, que sempre lhe dizia baixinho: Amo-te! Amo-te! Diz-se que um dia a Princesa pedira a Pero lhe escrevesse alguma coisa no seu leque. Pero traçou aí esta Lenda que era o romance de quasi toda a sua vida. A Princesa riu então mais que nunca. Pero queixou-se à Feiticeira que lhe respondeu - que se tinha remédio para acordar corações adormecidos, nenhum possuía para peitos sem alma.

Passaram-se tempos. Não há flor que não murche! Após eles Pero ria como um louco quando lhe falavam nesta história. A Princesa continuava a abanar-se. Somente tomava uma expressão pensativa, quando a brisa agitando-se perfumada em volta do seu rosto, lhe disse: Amo-te! Amo-te!

Jaime Batalha Reis


Epílogo: Pero ria como um louco porque o endoidecia a ideia de não ser compreendido no seu imenso amor. - A Princesa conheceu um dia que [n]o seu coração adormecido havia amor, acordava enfim com a frase que o leque murmurava de contínuo. De então por diante Pero enlouquecia de felicidade, olhando em êxtase para a Princesa que lhe sorria com meiguice.

Agosto 68 Jaime Batalha Reis


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