|
Pedro
Nunes não
foi nem um autor
precoce, nem um
autor prolífico.
A sua primeira obra
saiu dos prelos
quando tinha já
35 anos - uma idade
tardia para um matemático
criativo fazer o
seu aparecimento
público -
e, embora se tivesse
dedicado a um leque
de temas bastante
amplo, não
deixou uma obra
muito volumosa,
mesmo levando em
conta que preparou
outros trabalhos
que nunca chegaram
a ser publicados.
O
Tratado
da sphera com a
theorica do sol
e da lua (1537)
tem o interesse
de revelar alguns
dos que seriam os
interesses intelectuais
de Pedro Nunes:
a astronomia teória
- que, no entanto,
só se encontra
a nível elementar
em Purbáquio,
e a nível
elementaríssimo
em Sacrobosco -
os problemas matemáticos
associados à
cartografia - que
são parte
central do Livro
i da Geografia de
Ptolomeu - e as
questões
teóricas
de náutica
e navegação.
Estes assuntos ocupá-lo-iam
o resto da vida
e a eles voltaria
nos seus trabalhos
posteriores. Aliás,
o núcleo
central das reflexões
de Pedro Nunes apresenta-se
definido desde a
década de
trinta e, em grande
medida, todo o seu
trabalho científico
posterior foi um
aperfeiçoar
e ampliar dessas
ideias originais.
Astronomici
introdvctorii de
spaera epitome (1541)
(3)
Cumprida
a obrigação
de produzir essas
traduções
e anunciada a sua
posição
como um matemático
criativo, Nunes
pode retomar questões
que o ocupavam já
há algum
tempo. Em 1542 saía
dos prelos o De
crepusculis.
Pedro Nunes escolhera
um editor nacional,
mas as veleidades
de publicar em português
estavam definitivamente
arrumadas. O De
crepusculis tem
sido habitualmente
considerado o trabalho
mais sofisticado
de Pedro Nunes,
e não há
dúvida de
que, com este livro,
ele se apresentou
como um dos matemáticos
mais competentes
de meados do século
XVI. Atacou frontalmente
um problema conhecido,
mas com uma abstracção
e um rigor técnico
que muito impressionaram
os seus contemporâneos.
Uma vez mais, foi
Cristóvão
Clavius quem deixou
escritas as palavras
que melhor reflectem
a admiração
que esta obra causou
junto dos seus contemporâneos,
ao dizer que neste
trabalho "erudito
e elegante",
o português
"mostrou perspicazmente
muitas coisas que
a todos pareceriam
paradoxos se não
estivessem alicerçadas
nas mais sólidas
demonstrações".
Para além
do texto original
de Pedro Nunes sobre
a questão
dos crepúsculos,
e outros assuntos
correlatos, que
constitui o fundamental
da obra, o De crepusculis
merece ainda ser
assinalado por conter
a primeira versão
impressa do Liber
de crepusculis,
atribuído
a Allacen.
| |
Em
1544 foi confiada
a Pedro Nunes
a cátedra
de Matemática
da Universidade
de Coimbra.
Em termos
nacionais,
o cargo correspondia
à maior
distinção
que se podia
conferir a
um matemático.
Foi possivelmente
com o desejo
de corresponder
a esta distinção
que, pouco
depois, Pedro
Nunes finalmente
publicou uma
obra que já
há
mais de uma
década
tinha em mente
escrever:
o De
erratis Orontii
Finaei (1546).
Esta obra
mostra um
autor já
tão
seguro que
não
hesitava em
atacar directamente
um dos mais
influentes
matemáticos
europeus da
altura, Oronce
Finé,
professor
de Matemática
no Colégio
Real, em Paris.
A crítica
de Nunes é
devastadora
e foi conhecida
em toda a
Europa, mas
como frequentemente
sucede com
este tipo
de obras,
o De erratis
Orontii Finaei
foi ignorado
pelo visado.
Até
1562, ano
em que se
jubilou da
Universidade,
Pedro Nunes
levou uma
vida muito
intensa, dividida
entre a cidade
do Mondego
e Lisboa,
atendendo
às
suas obrigações
docentes e
administrativas,
na Universidade
de Coimbra,
e às
muitas solicitações
que lhe eram
enviadas desde
a capital,
no âmbito
da sua responsabilidade
como cosmógrafo
e, depois
de 1547, como
cosmógrafo-mor
do reino.
A produção
científica
de Nunes ressentiu-se
destas circunstâncias
a tal ponto
que só
em 1566, depois
de liberto
dos seus encargos
académicos,
voltou a dar
um livro aos
prelos. Nesse
ano fez publicar,
em Basileia,
o Petri
Nonii Salaciensi
Opera (1566),
uma compilação
de alguns
dos seus mais
importantes
trabalhos
originais.
No ano seguinte
publicou finalmente
o Libro
de algebra
en arithmetica
y geometria
, onde se
reúnem
questões
de álgebra
e de geometria
em que vinha
trabalhando
há
mais de 30
anos.
Com
o aparecimento
do Libro de
Algebra, em
1567, encerra-se
o ciclo de
publicação
de obras originais.
Sabemos que
Pedro Nunes
continuou
a trabalhar
em outras
obras e que,
à data
da morte,
tinha praticamente
prontas para
publicação
algumas mais,
mas o facto
é que
depois de
1567 só
saíram
dos prelos
reedições
dos seus trabalhos.
Em 1571 foram
publicadas
em Coimbra
as segundas
edições
do De
crepvscvlis
(1573)
e do De
erratis Orontii
Finaei (1573);
em 1573, também
em Coimbra,
apareceu o
De
arte atqve
ratione navigandi,
que é
uma segunda
edição
dos materiais
contidos nas
Opera
(1566),
a que se juntou
novamente
o De crepusculis
e o De erratis
Orontii Finaei;
e em 1592,
já
após
o falecimento
de Pedro Nunes
(1578), foram
novamente
editadas em
Basileia as
Opera
(1592).
Chegou até
nós
ainda um manuscrito
com um trabalho
que nunca
se imprimiu,
bem como a
notícia
de vários
outros trabalhos
que pensava
dar aos prelos.
|
|