ISBD (PM)
Maria Clara Assunção e Sílvia Sequeira
Biblioteca Nacional

1. Histórico

A primeira iniciativa para o desenvolvimento de regras de catalogação de documentos musicais de aplicação internacional não parte, ao contrário do que se possa pensar, de bibliotecários nem em bibliotecas. Foram a Sociedade Internacional de Musicologia (IMS) e a Associação Internacional de Bibliotecas, Arquivos e Centros de Documentação de Música (IAML), que decidiram iniciar um trabalho exaustivo de descrição de fontes musicais existentes em todo o mundo, iniciativa que levaria à criação, em 1952, do Projecto RISM – Repertório Internacional de Fontes Musicais . Nesta altura, ainda não estavam estabelecidas quaisquer normas de aplicação internacional para a descrição de documentos – estávamos ainda longe dos Princípios de Paris, em 1961, e das primeiras ISBD, nos anos 70 – pelo que as regras estabelecidas pelo Projecto RISM se desenvolveram sem obediência a princípios biblioteconómicos e de organização de informação procurando antes responder às necessidades de informação específicas da investigação musicológica.

A primeira ISBD a ser publicada, em 1974, foi a relativa à descrição de monografias – ISBD(M) – facto que não é irrelevante para o tema que estamos a abordar pois acabaria por condicionar a estrutura das normas seguintes, incluindo a da ISBD(PM). Com efeito, dadas as inúmeras propostas de adopção da ISBD para outras tipologias documentais, entre outros, o caso das partituras musicais, afigurou-se essencial estabelecer uma ISBD geral na qual todas as futuras ISBD se baseassem, ISBD essa que, por sua vez, teria de ser coerente com a norma específica já existente e que tinha sido concebida para a descrição de monografias. A ISBD(G) seria publicada em 1977 e a primeira edição da ISBD(PM) surgiria três anos depois, em 1980.

O trabalho sobre a revisão da ISBD(PM) começou em 1984 e teve em conta as revisões em curso nas outras ISBD sendo a edição revista da ISBD(PM) publicada em 1991. Foi sobre esta edição de 1991 que se realizou a tradução que agora apresentamos.

Contudo, desde 1991 já passaram 15 anos e, entretanto, muita coisa aconteceu no mundo da catalogação de música: em 1994, a IAML decidiu a criação de um grupo de trabalho para a definição dos elementos obrigatórios e opcionais nos registos bibliográficos de música e registos sonoros – Core Bibliographic Record – CBR cujos resultados foram apresentados entre 1995 e 1996.

Mas o facto mais importante terá sido a publicação, em 1998, dos Functional Requirements for Bibliographic Records – FRBR. Este estudo acabaria por se revelar o mais importante documento orientador jamais produzido desde os Princípios de Paris, de 1961, revolucionando conceitos e terminologia e tendo, talvez, o seu maior impacto, precisamente, na catalogação de documentos musicais, pela distinção que introduz entre os conceitos de “obra” e de “expressão”, há muito intuídos pelos catalogadores de música mas nunca antes definidos de forma tão clara e sistemática.

Em Julho de 2005 foram publicadas no sítio da IFLA as Guidelines for Using UNIMARC for Music – as quais incorporam muitos elementos das regras RISM (referidas no início) – e iniciaram-se os trabalhos para a revisão da ISBD(PM) aguardando-se, presentemente, as alterações a introduzir.

2 . Problemas inerentes à catalogação de música escrita

É inquestionável que a catalogação de documentos musicais envolve, para além dos problemas próprios dos outros documentos, um conjunto acrescido de problemas relacionados com:

– a natureza da obra musical,

– a sua multiplicidade documental,

– os aspectos técnicos da sua representação e

– a sua potencial utilização.

A música é uma realidade dinâmica, sujeita a toda a sorte de interpretações, variações e transformações. Cada interpretação, cada variação, cada transformação pode constituir uma “ expressão” (no sentido FRBR) distinta da obra musical ou dar lugar a uma nova obra musical, consoante o grau de modificação envolvido. Ora, decidir esse “grau de modificação” não é, de todo, indiscutível.

Por outro lado, a música não existe na partitura – nem no disco ou na fita magnética – a música é uma arte imaterial que só tem existência real quando é executada e os documentos musicais não passam, na verdade, de sinais, de instruções para a sua execução ou para a sua reprodução através de um aparelho de leitura.

Catalogar um documento textual não apresenta dificuldades técnicas de particular complexidade. Não se pode dizer o mesmo em relação à música. Uma ópera pode ser publicada em partitura, em redução para piano, em partitura vocal, em partitura de bolso, numa série de partituras vocais para cada uma das vozes solistas, em redução para acordeão contendo apenas as árias e os coros, em arranjo para banda ou para qualquer outro conjunto instrumental. Pode, ainda, ser publicada em edição crítica, em fac-símile ou apenas em libreto. Não se trata apenas de uma questão física: cada uma destas apresentações tem um conteúdo e uma função distintos – correspondendo a uma “expressão” no sentido FRBR – e a catalogação tem de reflectir essas diferenças.

Ligados à multiplicidade documental estão, ainda, diversos problemas relacionados com a prática específica de produção de documentos musicais. Por vezes, as variações sobre uma obra apresentam o mesmo título da obra em que se baseiam. É ainda frequente as publicações musicais não apresentarem rosto ou apresentarem vários títulos no rosto, sem título comum.

A descrição centrada na “manifestação” – tal como preconizam os Princípios de Frankfurt – omite informação essencial sobre o conteúdo de colecções e antologias, as quais se encontram com muito mais frequência na música do que no material textual e, normalmente, torna-se difícil clarificar a relação entre as várias obras contidas na “manifestação”, bem como uniformizar os respectivos pontos de acesso.

A música tem todo um conjunto de códigos escritos, não verbais nem dependentes da língua, e terminologia específicos. Não é possível identificar e descrever um documento musical sem recorrer a alguns elementos próprios da linguagem musical bem como a convenções técnicas próprias da música. As maiores dificuldades, ao nível tecnológico, encontram-se na inclusão do incipit musical no registo bibliográfico.

Os utilizadores de documentos musicais são muito heterogéneos; podem variar desde o músico amador com conhecimentos muito incipientes de música e um baixo domínio da terminologia técnica ao músico profissional e ao musicólogo altamente preparado, com um vasto domínio das matérias e elevada autonomia de pesquisa, passando por utilizadores que procuram informações não estritamente musicais como o historiador de arte, o cenógrafo, o sociólogo, etc. No entanto, todos irão fazer uso dos mesmos documentos, embora a sua abordagem se faça com diferentes níveis de informação e, mais importante, com diferentes tipos de vocabulário. As implicações deste facto para a informação musical são uma abordagem mais diversificada na procura de materiais musicais e um uso mais alargado de terminologia não especializada. As implicações para a pesquisa também são importantes: além da típica pesquisa por título ou autor, podem ocorrer pesquisas por género, por dispositivo, por época, estilo ou movimento, por nacionalidade do autor, por designação geográfica, por tema, por contexto (ex.: filme, concurso musical, emissora de rádio, etc.), por intérprete e pela combinação de vários critérios.

3. A ISBD(PM)

A ISBD(PM) é a norma internacional para a descrição bibliográ fica de música impressa. Mas, o que se entende por música impressa?

É toda a edição de música destinada à leitura, reproduzida pelos métodos de impressão tradicionais, por fotocópia, offset, etc. Engloba toda a música destinada à execução ou estudo, como métodos, estudos e exercícios e ainda as edições facsimiladas de manuscritos ou impressos musicais. Da música impressa excluem-se os tratados e obras teóricas de música e sobre música, ainda que estes contenham exemplos musicais mais ou menos extensos.

A cada uma das formas pelas quais a música pode ser apresentada (ou seja, o tipo de partitura) – partitura e/ou partes, partitura vocal, partitura de bolso, edições críticas, facsimiles, etc. – designa-se apresentação ou formato musical.

Não é necessário saber música para catalogar música impressa, mas é necessário possuir alguma cultura musical. Serão necessários conhecimentos que permitam reconhecer a apresentação musical – partitura/parte, partitura de bolso, partitura vocal, etc. – uma vez que, a maior parte das vezes, este dado não consta na publicação. Também será necessário identificar tonalidades, géneros e instrumentos musicais em várias línguas (inglês, francês, italiano, alemão) uma vez que a maior parte das edições não são portuguesas. Outros dados que são expressos por sinalética própria ou pela própria notação, são a clave, a tonalidade ou modo, o compasso e o tipo de notação musical. Em alguns casos é necessária a transcrição do incipit musical, indispensável na identificação de manuscritos. A maior parte desta informação pode ser obtida em boas obras de referência (dicionários de música ou de termos musicais, enciclopédias…) embora a curiosidade pela música seja um excelente auxiliar por si só.

Quanto à descrição de manuscritos, esta exige conhecimentos musicais e musicológicos mais profundos.

4. Uma breve avaliação da ISBD(PM)

Vantagens

As vantagens na utilização da ISBD(PM) para a descrição e catalogação de documentos musicais são as mesmas que resultam da normalização na descrição de qualquer outro tipo de documentos: especificando os elementos necessários numa descrição bibliográfica, prescrevendo a sua ordem de apresentação e pontuação que os delimita, permite que os registos de diferentes fontes possam ser interpermutáveis, facilitando a troca de registos entre agências bibliográficas nacionais e internacionais, ultrapassando a barreira da língua, permitindo assim uma catalogação descritiva à escala mundial, vantagem potenciada pela própria natureza universal da linguagem musical. Se o acesso a uma obra literária em húngaro pode ter pouco interesse para um português que não leia essa língua, o mesmo não sucede quanto ao acesso a uma obra musical de Bartók, existente numa biblioteca da Hungria. Há que não esquecer, contudo, que a ISBD compreende apenas uma parte da descrição num registo bibliográfico e muita da informação relevante para a pesquisa musical - cabeçalhos, indexação, títulos uniformes, classificação e remissivas – também carece de normalização adequada.

Insuficiências

Tal como mencionámos no início, a principal fragilidade da ISBD(PM) decorre de radicar na norma para a descrição de monografias. Toda a tradição catalográfica partiu da descrição de monografias e este facto condicionou todas as normas de descrição que se seguiram, quer ao nível da estrutura, quer ao nível da terminologia.

A terceira zona contém dados específicos de um tipo de material ou tipo de recurso. No caso da música, a ISBD(PM) inclui nesta zona, apenas, a apresentação ou formato musical (tipo de partitura) que deve ser dado na forma como ocorre no documento, sendo o rosto a fonte prescrita de informação. O seu problema é, paradoxalmente, a sua pouca utilidade. Tão pouco útil que, nas recomendações da IAML para o CBR, esta zona não é considerada obrigatória e nas Guidelines da IFLA para descrição de documentos musicais não é sequer contemplada! Esta aparente contradição explica-se com a pouca frequência com que esta informação ocorre na fonte prescrita – por um lado – e com a sua redundância em relação aos dados apresentados na 5ª zona (descrição física), com vantagem para esta última por serem apresentados de forma normalizada e na língua da catalogação.

Outro aspecto em que a norma que levanta problemas de aplicação prende-se com a terminologia empregue. Na ISBD(PM), os termos normalizados de apresentação musical são dados na 5ª zona (descrição física). Ora, “partitura reduzida” ou “partitura vocal” não são, em rigor, indicações físicas porquanto têm a ver com o conteúdo e não com a forma física. O mesmo sucede com a indicação de “partitura” e “partes”. Por outro lado, um único volume pode conter várias partituras de diferentes obras, o mesmo sucedendo com as partes cavas.

A maior parte das informações que realmente interessam é dada em notas: dispositivo da obra original e da versão em presença, tonalidade ou modo, forma ou género, número de opus ou de catálogo, tipo de notação musical, etc.

5. Cruzamento com outras normas e regras

É quase impossível catalogar muito do material musical impresso que vem parar às nossas bibliotecas sem ter de cruzar a ISBD(PM) com outras normas de descrição. Isto sucede porque a ISBD(PM) só é auto-su f iciente na música escrita destinada à execução ou ao estudo como são os casos das partituras com ou sem partes cavas e das partituras de bolso. No caso das edições críticas, acompanhadas de estudo, de notas diversas, por vezes de imagens, temos de cruzar a ISBD(PM) com a ISBD(M); no caso das partituras impressas antigas, temos de recorrer à ISBD(A); e no caso das séries temos de nos socorrer da ISBD(CR).

O caso específico dos manuscritos

Embora exista impressão de música desde o século XVI, grande parte da música que temos para catalogar sobreviveu através de cópias manuscritas, a forma mais comum de circulação de música antes da f otocópia.

Como é sabido, não existe uma ISBD para a descrição de manuscritos. Para a catalogação dos documentos musicais manuscritos utiliza-se, como estrutura-base, a ISBD(PM) mas recorre-se a algumas práticas comuns na descrição de manuscritos e aplicam-se alguns elementos próprios da descrição RISM, nomeadamente as abreviaturas (na descrição da forma de execução ou dispositivo), uma vez que são internacionalmente conhecidas entre músicos e musicólogos, os principais utilizadores deste tipo de documentos. Não será, aliás, por acaso que, ainda hoje, muitos músicos e musicólogos pre ferem a descrição usada pelo Projecto RISM à catalogação e fectuada nas bibliotecas. Destinadas à identificação de manuscritos musicais, estas regras foram concebidas por investigadores para a inventariação de fontes musicais não tendo propriamente a função de catalogação mas contemplando informações muito detalhadas relativas a aspectos especificamente musicais, informações essas que se revelam de grande importância para a investigação musicológica.

Conclusão

São sem dúvida indiscutíveis as vantagens decorrentes da utilização da ISBD(PM) para descrição e catalogação de música. Não podemos no entanto esquecer que, desde a sua edição revista em 1991, sobre a qual foi feita a presente tradução, muito foi feito no que diz respeito à descrição de documentos musicais: a criação do grupo de trabalho do CBR, em 1994 pelo IAML, a publicação dos FRBR e as Guidelines for Using UNIMARC for Music da IFLA são disso um exemplo.

Sabemos que os documentos musicais continuam a oferecer desafios aos catalogadores. Aguardamos pois com expectativa os resultados da revisão da IBBD(PM) que teve início no ano passado.

Mais leituras:

ASSUNÇÃO, Maria Clara – Catalogação de documentos musicais escritos: uma abordagem à luz da evolução normativa . Évora: Universidade de Évora, 2005. Dissertação de mestrado em Ciências Documentais.

BYRUM, John D. – The birth and re-birth of the ISBDs: process and procedures for creating and revising the International Standard Bibliographic Descriptions [Registo electrónico em linha]. In IFLA COUNCIL AND GENERAL CONFERENCE, 66th, Jerusalem, Israel, 13-18 August [2000]. http://www.ifla.org/IV/ifla66/papers/118-164e.htm. Último acesso em 06-05-2006.

IAML – Core standards for music [Registo electrónico em linha]. http://www.interactivemusicnetwork.org/wg_accessibility/upload/d1311.doc. Último acesso em 06-05-2006.

IFLA. FRBR Working Group – Functional requirements for bibliographic records . München: Saur, 1998. ( UBCIM Publications – New Series ; 19). ISBN 3-598-11382-X.

IFLA. Permanent UNIMARC Committee – UNIMARC guidelines: music [Registo electrónico em linha]. 19-07-2005. (UNIMARC Guidelines ; 7). http://www.ifla.org/VI/8/projects/UNIMARC- Guidelines7Music.pdf . Último acesso em 06-05-2006.

IFLA. ISBD(PM) Working Group – ISBD(PM): International Standard Bibliographic Description for Printed Music. 2 nd ed. revised. München: K.G. Saur, 1991

IFLA MEETING OF EXPERTS ON AN INTERNATIONAL CATALOGUING CODE, 1, Frankfurt, 2003 – Statement of International Cataloguing Principles [Registo electrónico em linha]. “Final” Draft Based on Responses through Dec. 2004 showing further recommended changes from Buenos Aires August 2004 and Cairo Dec. 2005 (Apr. 3, 2006 Draft).

http://www.d d b.de/standardisierung/pdf/statement_draft_apr2006.pdf . Último acesso em 06-05-2006.
Versão em língua portuguesa (2003) disponível em: http://www.ddb.de/standardisierung/pdf/statement_portugese.pdf . Último acesso em 06-05-2006.

RISM - Répertoire International des Sources Musicales – Normas internacionales para la catalogación de fuentes musicales históricas: (Serie A/II, Manuscritos musicales, 1600-1850) / traducción española y comentarios realizados por José V. González Valle, Antonio Ezquerro, Nieves Iglesias, C. José Gosálvez, Joana Crespí. [Barcelona?]: Arco Libros, [1995?]

 
 
10as Jornadas PORBASE
Programa
Fórum tecnológico
Workshop
Inscrição
Informações úteis