Maria Keil Ilustradora - NA BIBLIOTECA NACIONAL
MARIA KEIL OBRA AMIGOS DE MARIA SOBRE A EXPOSIÇÃO
Imagem produzida apartir de um auto retrato de Maria Keil
MATILDE ROSA ARAÚJO
PEDRO MORAIS
RAUL HESTNES FERREIRA
TERESA BALTE
Matilde Rosa Araújo - Fotografia de Miguel Miranda
MARIA KEIL

Maria fica sempre fora de todos os discursos.

Há algo de imponderável, de não tocável ou que possa ser descrito na pessoa física, na personalidade tão rara de Maria Keil.

E, contudo, como os seus pés frágeis estão bem assentes na terra, como o seu espírito crítico tão agudo, enriquecido pela lâmina fina do humor, olha o Mundo – Mundo mais belo e justo se fosse cumprido o seu sonho.

Maria (que tesouro tê-la como amiga há tantos anos!) nunca envelheceu. É aquela Menina sempre criança, que tem a sabedoria de muitos anos e a humildade digna de um ser humano que recusa ser importante, consciente do Bem e do Belo que lhe são intrínsecos.

Por vezes, penso na Maria e tenho, junto de mim, uma ave, leve, de asas luminosas que, naquele instante, está emigrada para muito longe. Só.

E na solidão procurada, chora.

Depois, volta e sorri. Ri. Dá aquelas gargalhadas fininhas, como só Maria sabe dar.

Quebram-se estrelas.

– Eu não valho nada. O que é que eu sou?

– Oh, Maria!!!

Não vale, pois não. Porque tanto é, tanto está. E não dá por isso.

Tanto a sua obra é pura, força de uma natureza de todas as estações, seus traços, suas cores levitam aéreos – mas reais e presentes.

Lembro a sua casa na Travessa do Abarracamento de Peniche, o seu quartinho por detrás das descarnadas traves pombalinas.

E da varanda alta e florida de verdes, os longes do céu, dos telhados de Lisboa, do rio – longes que trazem o sagrado do silêncio.

E a Maria olha. O seu olhar de menina sábia. Suas mãos de leveza alada.

Maria na varanda.

Ave de espanto e de espantos.

Encantamento que ri, que recusa chorar.

E Maria tanto sente no silêncio do seu amar.

Maria, obrigada de todo o coração.

Encontrar seu voo em livros meus foi, para mim, um raro presente da vida que a sua generosidade nunca me recusou.

Maria, que suas mãos continuem, por muito tempo, a voar.

Menina sábia em sua varanda.

Matilde Rosa Araújo

 
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