Maria Keil Ilustradora - NA BIBLIOTECA NACIONAL
MARIA KEIL OBRA AMIGOS DE MARIA SOBRE A EXPOSIÇÃO
Imagem produzida apartir de um auto retrato de Maria Keil
MATILDE ROSA ARAÚJO
PEDRO MORAIS
RAUL HESTNES FERREIRA
TERESA BALTE
UM COLAR DE RECORDAÇÕES PARA A MARIA

 

No princípio esteve a Margarida, colega de curso, companheira de lutas académicas, minha amiga. Uma noite no VáVá apresentou-me os pais, a Ilse e o Arménio. Pouco depois, num fim-de-semana, levaram-me a Sacavém, à quinta dos Keil. Conheci mal o dono da casa, a quem tratei cerimoniosamente por Senhor Arquitecto. O mesmo não aconteceu com a Maria. Pequena e frágil, discreta, de cabelos de linho não sei se ainda em trança e olhos claros, respeitosamente tratei-a logo pelo nome nesse dia cheio de sol e de crianças. Viríamos também a conhecer-nos melhor.

Entretanto, revisitei a pé os painéis da Infante Santo por onde só passara de autocarro; viajei de metro observando os azulejos das estações com uma consciência especial, comparando-os, presumindo preferências; o Hein falou-me do Chico e dela, camaradas de longa data das lides artísticas.

Revimo-nos talvez anos mais tarde. A Ilse Losa desafiara-me a escrever uma história infantil para a colecção que então dirigia na Asa, e aceitei. Sugeriu o Semke para ilustrá-la, que me disse que não teria paciência. Sugeriu a Maria, e ela aceitou. Encontrámo-nos assim algumas vezes. Queria que concordássemos sobre episódios a ilustrar, escolhêssemos desenhos – delicadezas da Maria, raras hoje, em que a falta de tempo e a industrialização do «produto» tendem a omitir o prazer e o fruto do diálogo das imaginações.

Lembro-me da ocasião na casa dela, ainda à António José de Almeida, em que me mostrou os primeiros esboços: belos ramos de nespereira aguarelados, uma abelha irrequieta e… centenas de formigas definindo padrões negros brilhantes, aglomerando-se em movimentos gráficos, traçadas a tinta-da-china com uma infinita paciência. A história era sobre insectos feitos gente. Mais tarde ela confessar-me-ia que nunca mais ilustraria histórias de formigas, mas nessa altura acabou por convidar-me a ficar para o jantar: peras cozidas – refeição de sozinhos – que foi descascando e pondo ao lume enquanto conversávamos. Depois sentámo-nos no chão junto à estante e mostrou-me os seus livros de menina, os do filho, os dos netos, rodeou-nos de livros; e ao correr do serão fomo-nos percebendo, eu descobrindo a sua segurança inaparente, o seu ânimo, a sua força fina, ela não sei o quê, e descobri também a escritora Maria Keil.

Mais um longo intervalo e outra vez a Margarida voltou a reunir-nos. Viera a Lisboa e ficara na nova casa da Maria, agora ao Príncipe Real. Encontrámo-nos as três num banco do jardim à sombra do grande cedro, ao lado do lago, juntas julgo que pela última vez.

Quando de uma reedição do livrinho comum fui ver a Maria à casa nova. Levei-lhe os exemplares que lhe pertenciam. Recebeu-me com uma visita guiada pelo andar, pelo atelier onde se acumulava uma série de trabalhos sobre modernos cavaleiros montados em Harley Davidsons, pela varanda por cima da qual se agitava a roupa do estendal dos vizinhos, enfunada a secar ao vento, que lhe inspirara um ciclo fotográfico. Sentadas à janela, ouvindo os ecos dos meninos no recreio da escola do rés-do-chão e contemplando o Tejo à distância, diante de uma limonada e de um bolo de noz, falámos e calámo-nos ou não dissemos nada, como velhas amigas. Desde aí temo-nos cruzado em exposições, telefonado um par de vezes. Demasiado poucas.

As recordações são como as formigas, assaltam-nos, irritam-nos, algumas doem; mas são também como as abelhas, que na paisagem escolhem as flores para fazer o seu mel e com beleza e doçura tornam a vida mais amável.

Agradeço à «abelha Zulmira» o gosto de conhecer a Maria.

Lisboa, 25 de Junho de 2004

Teresa Balté

 

 
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