BIBLIOTECA NACIONAL NATIONAL LIBRARY OF PORTUGAL
OS PORTUGUESES E O ORIENTE (1840-1940)
Thai
Sobre a exposição About the exhibition
Sião China Japão
* O diálogo falhado
*
* Kangxi, o Grande
* China amada, China Desprezada
* O Início das agressões europeias
* Narcotização da China pelos Britânicos
* A Mais suja das Guerras
* Semi-descolonização europeia
* A tragédia dos Culis
* O fracasso das reformas
* A China Moribunda
*
O último imperador
*  Os senhores da Guerra
*  A Guerra com o Japão
* A nova China
*  Biografias e Bibliografia

China amada, China desprezada

Exaltada pela sinofilia da primeira metade de setecentos, detestada por Hegel e Marx como "fóssil vivo".

D. João V tentou lembrar ao imperador chinês a secular relação entre os dois estados, que encontravam na sui generis Macau uma engenhosa fórmula de relacionamento proveitoso a ambos. A embaixada de Alexandre de Metelo de Sousa e Menezes, chegada a Macau em 1726, já Kangxi morrera e em seu lugar se sentara o bem menos flexível Yongzheng (que logo revogou o Édito da Tolerância), constituiu um fracasso de incomunicabilidade entre dois mundos. Este dialógo de surdos acentuou-se ao longo do século XVIII, não obstante os chineses reconhecerem com humildade o muito que haviam recebido do Ocidente nos domínios da cartografia, da engenharia, da farmacopeia e das ciências militares. Voltaire e Quesnay terão sido os derradeiros ecos de uma sinofilia que tivera em Leibniz o mais ardoroso defensor, mas que se esfumaria nas objurgatórias de Montesquieu e Rosseau – que consideravam a China como a quinta essência do despotismo -, nos textos de Adam Smith – que a definiam como uma civilização estacionária – , nas considerações de Hegel sobre uma civilização paralisada e declinante ou no “fóssil vivo” a que mais tarde aludiria Marx. A imagem desse “mundo imóvel”, que Peyrefitte perfeitamente retratou, surgia aos olhos europeus como uma anomalia ainda mais indigna que o império Otomano, pois se este se resignara à lei do declínio, aquela continuava a repelir com veemência qualquer tentativa ocidental.

A Yongzhen sucedeu Qianlong, em cujo reinado (1736-1795) o império atingiria a máxima expansão territorial, estendendo-se do Amur ao planalto do Tibete, do deserto do Taklimakan à Formosa, rodeando-se ainda de uma cintura de estados tributários (Sião, Laos, Dai Viet, tribos da estepe). O imperador era um letrado metódico e um apaixonado da mecânica. No magnificente Palácio de Verão, construído à europeia nos arredores de Pequim segundo instruções do jesuíta Castiglione – pintor da corte -, rodeava-se de um verdadeiro parque de maquinaria de precisão: relógios, globos celestes, telescópios. O palácio viria a ser saqueado e queimado pela soldadesca franco-britânica em 1868, mas o remanescente da colecção subsiste ainda hoje nas colecções do Palácio Imperial de Pequim, desmentido o depois tão propalado mito da xenofobia chinesa.

 
 
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