BIBLIOTECA NACIONAL NATIONAL LIBRARY OF PORTUGAL
OS PORTUGUESES E O ORIENTE (1840-1940)
Thai
Sobre a exposição About the exhibition
Sião China Japão
Apresentação
Wencselau de Moraes
A Ásia, essa desconhecida
Do Oriente Português
Portugal e o Oriente
Catálogo da Exposição

Portugal e o Oriente: o passado e o presente, João de Lima Pimentel, Embaixador de Portugal na Tailândia

João de Lima PimentelHonra-me o convite - e com grato prazer lhe dou seguimento - que me foi dirigido pela Biblioteca Nacional, para incluir no catálogo relativo à exposição sobre os portugueses e o Oriente, no quadro das celebrações do 150º aniversário do nascimento de Venceslau de Morais, algumas observações sobre a relevância da presença portuguesa no Oriente, na perspectiva de um diplomata em funções nos tempos de hoje.

Abstenho-me propositadamente de detalhar referências ou comentários à matéria histórica - para a qual outros, muito melhor credenciados, contribuirão - e procuro tão somente perspectivar o significado e interesse que na actualidade detém a presença histórica portuguesa no Oriente, para a qual Venceslau de Morais contribuiu, enquanto um dos últimos grandes actores. Ao assumir as actuais funções, tive oportunidade de notar vestígios da presença portuguesa, alguns ainda vivos, que só de livros ou ilustrações conhecia.

Percorri a zona geográfica do Sudeste-Asiático continental, mas julgo não errar se me atrever a alargar a todo o Este e Sul asiático, ainda que "mutatis mutandis", a percepção que entretanto retirei. Foram indubitavelmente os portugueses - aventureiros, mercadores e missionários - que estabeleceram no século XVI as pontes de relacionamento entre a Europa e o Oriente "asiático", saltando sobre a barreira do "próximo" oriente sob domínio otomano. Foi a "era de ouro" da descoberta das rotas marítimas trans-continentais e do esboço de um império de novo tipo, de uma moderna talassocracia.

Mas a presença e influência portuguesas no Oriente não se acantonaram nos limites do quadro temporal das "descobertas" e do - assaz curto - período de império que se seguiu. Pelo contrário, registamos, até ao século XIX, uma continuidade, se não de uma presença global, seguramente de presenças portuguesas individualizadas activas em diversas áreas do Oriente. Pretendo expressar que a presença portuguesa se manteve, não obstante no século XVI se tenha imposto o termo de uma estratégia geral "de império. Com base em acções empreendidas a partir de Goa e Macau, quer sob a responsabilidade das autoridades que representavam a Coroa, quer geradas por interesses comercais privados, estabelecimentos ou entrepostos portugueses continuaram a "fazer negócio" ao longo das rotas marítimas que contornam o sul e este da Ásia. Por outro lado, comunidades compostas por descendentes de portugueses conseguiram preservar um carácter e língua próprios, disseminadas - para além dos casos de Macau e Timor - um pouco por todo o sul e este asiático. Este conjunto de factores permitiu que, de alguma forma, se mantivesse até à consolidação dos modernos estados da Ásia uma "corrente de memória" dos "Portuguete". Na China e no Japão, conhecidamente, mas também, embora não tão conhecidamente, na Birmânia e Tailândia, no Vietname e Indonésia (não me refiro neste contexto ao óbvio caso de Timor) persistiram traços históricos, étnicos e culturais da presença portuguesa. Revenho ao que no início escrevi. Este património não deve encarar-se como algo apenas de museológico, a "preservar". Pelo contrário, constitui um capital político e cultural (e, não receemos a referência à afectividade, "sentimental") que o interesse nacional português impõe seja reconhecido, acarinhado e desenvolvido. Ilustres predecessores meus - e, agora, também eu próprio - fizeram bem a experiência do valor e efeitos práticos, também para o sector da actividade económica, que desta realidade se oferece retirar.

Na Ásia, história e actualidade ainda são vasos plenamente comunicantes. Estou certo de que a presente exposição sobre os portugueses e o Oriente no quadro das celebrações de 150º aniversário de Venceslau de Morais constituirá, por um lado, um importante contributo para o esforço de promoção do conhecimento e apreciação do valor da herança histórica de Portugal que se relaciona com a Ásia, e, por outro, um convite à exploração das potencialidades actuais de um património que, sendo pretérito, não está defunto. Felicito os promotores. Bem hajam!

Banguecoque, 20 de Julho de 2004

 
 
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