Hans Christian Andersen: 1805-1875. EXPOSIÇÃO NA BN DE 3 DE MARÇO A 14 DE MAIO DE 2005
Cronologia
O CONTISTA A VIAGEM A PORTUGAL
OS CONTOS EVOCAR HC ANDERSEN
RECURSOS ONLINE
SOBRE A EXPOSIÇÃO
 

O Contista

O príncipe dos contistas modernos, Andersen, Hans Christian Andersen, esteve em Lisboa, em 1864, hospedado em casa do sr. Jorge O'Neill.
Andersen era dinamarquês, o sr. Jorge O'Neill, pai, é consul de Dinamarca, e a Dinamarca é uma terra de poesia, de tradições, de contos e lendas populares, espécie de Veneza em grande, com ilhas que em vez de palácios têm florestas, campinas e praias
Fazia o sr. Jorge O'Neill tudo o que podia, e podia muito, para tornar agradável o viver do seu hóspede; e o hóspede recompensava-o desses extremos de amabilidade em contos capazes de fazerem a estalar, de riso todas as corporações de Copenhague.
Era um homem magríssimo, muito alto, suavemente sonhador, esquisito como diz o povo, de olhos meio fechados, expressão alegre e boa, celebrório, feio, comprido e estítico de mais, mas que, a poder de singeleza e sem embargo da fealdade, tinha um quê de sublime.
Quando fazia anos festejavam lhe o aniversário, lá na terra dele, como se fora uma solenidade nacional. Iam desfilar todas as corporações com música e bandeiras por diante da casa onde ele morava, e onde o rei e o príncipe chegaram a ir cumprimentá-lo, saudando no poeta o homem mais célebre do país, mercê dos seus contos, — dos seus contos, e mais nada; pois!
Filho de gente humilde e pobre, uma avó dele era empregada em tratar das flores do jardim do hospital dos doidos.
Costumava ele ir vê-la quando era pequeno, e entretinha-se muito a olhar para os doidos que andavam a passear no pátio. Punha-se à escuta para os ouvir conversar, entre curioso e assustado, e, enchendo-se de ânimo, lá se atrevia a aproximar-se-lhes, no intento de escutar bem tudo o que dissessem e não perder uma palavra que fizesse falta no fio daquelas historias deles; aventurando-se às vezes a acompanhar os guardas até aos quartos de grades onde estavam fechados os doidos furiosos.
Conta ele mesmo que havia um corredor muito comprido com quartos de um lado e do outro, no hospital; e que, de uma ocasião em que o guarda voltou costas, ele se pusera de joelhos a espreitar pela greta da porta, e vira uma mulher meia nua, estirada em cima da palha, com os cabelos soltos pelo corpo abaixo, a cantar com uma voz maviosa, e que, de repente, a mulher se atirou à porta, abriu o postiguinho por onde costumavam passar-lhe a comida, olhou para ele fixamente, e estendeu um braço muito comprido, tão comprido que ele chegou a sentir as unhas tocarem-lhe o fato e largou a gritar com quanta ânsia tinha.
Era dado a medos súbitos; nunca, enquanto menino, saiu de casa depois das ave-marias...
Ruas em que houvesse árvores, logo se lhe afiguravam estar a ver procissões de gigantes...
Em se pondo o sol logo ele ia para ao pé da cama, e, aí, muito esperto, principiava a ideia a trabalhar-lhe, e a criar uma enfiada de figurinhas fantásticas, que viviam familiarmente com ele; com ele, que ficava todo a tremer ...
Foi essa disposição para os sustos o tormento de toda a sua vida, segundo dizem. Em estando numa altura qualquer, - não era preciso grande coisa, bastante um terceiro andar, - davam-lhe vertigens.
Tem-se falado por muitas vezes, em Lisboa, dos terrores vagos, supersticiosos, nervosos, de um dos talentos mais ilustres de Portugal, e que, como quase toda a gente prendada pela natureza com extraordinária imaginação, tem apreensões e medos súbitos, querem dizer que, principalmente, com respeito a gatos... O que admira? Não se conta, do Andersen, que tendo ido de Dinamarca à Suíça para visitar um amigo, não se atreveu a entrar em casa dele e estacou à porta, porque ouvisse uivar um cão, partindo nessa mesma noite para Nice, onde o amigo teve de ir visitá-lo a ele?
Quando aos catorze anos foi de Odense para Copenhague, onde não conhecia ninguém, levava uma carta para uma bailarina, que o pôs na rua tomando-o por doido. Foi dali direito ao empresário, pediu-lhe para o escriturar fosse como fosse, no que o empresário não quis consentir por modo nenhum, com o achá-lo muito magrinho.
- Magríssimo! dizia-lhe. É magro demais, meu rico amigo! Nunca se viu uma coisa assim!...
Chegou a entrar no Conservatório para aprender a cantar. Mas, passados seis meses, começou a mudar a voz, e o director mandou-o embora dando-lhe por conselho o deixar-se daquilo.
Ainda, todavia, apareceu uma vez em cena.
Foi numa dança. Fazia de demónio. O nome dele figurava no cartaz ...
«O meu nome em letra redonda! diz ele. Que acontecimento na minha vida. Figurava-se-me isso como uma garantia à imortalidade. Não podia pensar noutra coisa. Levei para casa o abençoado programa do espectáculo, e, deitado, lia, relia, o meu nome - o meu nome, impresso! Que êxtase!»

Pouco depois, foi admitido a cantar nos coros, aparecendo ora de pastor, ora de guerreiro, e entretendo os ócios em com por tragédias, que ia passando gravemente para as mãos do em presário, que apesar de as não querer para nada, acabou por gostar dele, e alcançou-lhe não só uma pensão mas o frequen tar escolas gratuitamente.

Nisto, fez o Andersen o seu primeiro conto, que veio a ser traduzido em todas as línguas, e lhe deu entrada nos salões, mercê da curiosidade que havia de ver o autor.

De conto em conto se popularizou, alcançando, quando tinha já vinte e três anos, entrar, dizem uns para uma escola popu­ lar, outros, para a Universidade. Foi a bordo de um vapor, que eu tive a honra de ser apre sentado a Andersen pelo sr. Jorge O'Neill. Figura-se-me estar a vê-lo, quando ele me estendeu uma excelente mão, não só res­peitável pelo muito e muito bom que escreveu, porém, também, pelas avantajadas proporções que tinha. A sinceridade da ex­ pressão daquele homem, um quê infantil, generoso, bom, que transudava em belo uma figura, que, se não fora o talento, haveria dado num feio descomunal, o sorriso amável, o brilhar da graça nos olhos, a modéstia das suas maneiras, tinham o po­ der fantástico de um encanto. O que principalmente o distingue como contista, é o meio tom ora alegre, ora melancólico. As suas historias mais engra­ çadas não fazem rir, mas sorrir: nesta diferença vai o melhor do seu talento; a delicadeza, o gosto. No trato íntimo era, segundo contam os que o conheceram familiarmente, o que se chama um brincalhão.

Uma senhora, que se deu muito com ele e o estimava com o apreço fanático de uma admiradora, contou-me que não havia maneira de estar sério, quanto mais de estar triste!, ao pé dele. Tirava partido de tudo quanto parecesse mais simples; quando a família de um relojoeiro, que falecera, teve a lembrança de lhe encomendar um epitáfio, mandando-lhe dizer que levasse o preço que quisesse, mas se despachasse com obra de dar na vis­ta, ele rabiscou logo a composição que se vai ler, e enviou-a dizendo que não tinham que pagar nada: «Aqui jaz, fulano, horizontalmente. Foi a integridade mola real de sua vida e a prudência regulador de suas acções, só deixando de obsequiar quem não tivesse a chave do que ele valia. As horas se lhe des lizaram por um mostrador de prazeres, até que um minuto fatal lhe pôs termo a seus movimentos, enviando-o para a eternidade a fim de ser limpo e concertado.»

O primeiro livro que publicou intitulava-se Passeio a Amack. Extinguiu-se a edição; e o rei da Dinamarca deu-lhe um subsí dio, para que pudesse ir viajar pela Europa.

Quando publicou os seu contos reunidos num volume, viu-os acolhidos com frieza, ao princípio, e caiu de ca­ ma, com febre, por causa disso. Depois, logo que se sentiu me­ lhor, fugiu para o Oriente, «país dos seus sonhos» como ele próprio o confessa, país dos contos, pátria fantástica daquel es temperamentos cismadores...

Na volta foi pela primeira vez à Alemanha e relacionou-se ali com o Tieck e o Chamisso, poetas e escritores célebres. Não era alemão este último, como muita gente pensa, e sim de origem francesa; viveu, porém, em Alemanha desde muito mo­ço, e nesse país se tornou conhecido. Foi ele que traduziu em alemão o Béranger. Já me disseram que há ainda parentesco da família Chamisso, do Porto, tão conhecida em Lisboa, com um literato alemão do mesmo apelido. Ignoro se é esse que tem mais um a, Chamissoa, literato e sábio, botânico célebre. Há quem escreva, tratando dos nossos compatriotas deste nome, Chamiço; mas tenho à vista um bilhete do sr. conselheiro Francisco de Oliveira Chamisso, em que o seu nome vem escrito da maneira que acaba de ler-se.

Inculcam alguns biógrafos que foi o poeta Oehlenschloeger, quem alcançou para Andersen a pensão do rei; ele dizia, que, ao empresário, em compensação de lhe não querer as tragédias - entre outras uma chamada Ashaverus, - é que devera o ha­ver-se obtido isso.

Era um contista de excepção, e, como tal, poeta, nem há contista a valer sem ser poeta, muito embora faça ou não faça versos. De um grande número de escritos seus, - tão grande que há uma edição de Leipzig, única completa, que vem apon­ tada no dicionário de Larrousse, que forma 33 volumes — os Esboças de viagem, o romance do Improvisador, o drama do Mulato, uma comédia Flores da ventura, o romance O. T., o Bazar do poeta, outro romance de costumes dinamarqueses As duas baronesas, o que vive ainda, e viverá por muito tempo, são os contos, tradu­ zidos hoje numas poucas de línguas e populares em toda a Eu­ropa, os contos, que fazem um volume, um só livro, mas esse superior, inimitável, o primeiro no seu género, pela grande naturalidade que respira neles, a graça como que inocente, a facilidade que não se arremeda, o talento de saber ter feição, individualidade própria, fisionomia especial, o condão de se estremar, e de ninguém o confundir com outrém, na narração ga lante de qualquer história, que entretenha e alegre o espírito... Lá se lê nos Lusíadas:

Com que melhor podemos, um dizia, Este tempo passar que é tão pesado Senão com algum conto de alegria?
Se eles apanhassem os do Andersen, que festa ali não iria!
Não são casos velhos. Ninguém os inventaria melhor.

Dir-se-iam passarinhos novos, aquelas histórias, a espalha­ rem lírios, diamantes, estrelas, figuinhas de criança; alminhas sem malícia a rirem-se para a gente, uma orquestra a cantar, a natureza animada pelo talento, como a dar-lhe, a palavra humana, e saber a linguagem dos cisnes, dos salgueirais, dos bichos, das aguas, das rosas, e das crianças. Para ser ordenado contista cumpre fazer voto de singeleza; a santa, divina simplicidade: quanto mais para ser mestre, para ser Andersen, para ser único! É uma literatura, a dos contos, que brota do pensar nacional e do gosto fino e excepcional de um escritor; popular não o é, não se pode verdadeiramente dizer que o seja, senão pelo espírito geral, que a anime e rescenda dela.

Júlio César Machado, 1885

[...] Era um homem magríssimo, muito alto, suavemente sonhador, esquisito como diz o povo, de olhos meio fechados, expressão alegre e boa, celebrório, feio, comprido e estítico de mais, mas que, a poder de singeleza e sem embargo da fealdade, tinha um quê de sublime. [...]

A Sereia em Copenhaga. Estátua inspirada na história 'A pequena Sereia' de Hans Christian Andersen.

 
2005 BIBLIOTECA NACIONAL. Todos os direitos reservados