Hans Christian Andersen: 1805-1875. EXPOSIÇÃO NA BN DE 3 DE MARÇO A 14 DE MAIO DE 2005
Cronologia
O CONTISTA A VIAGEM A PORTUGAL
OS CONTOS EVOCAR HC ANDERSEN
RECURSOS ONLINE
SOBRE A EXPOSIÇÃO
 

Evocar Hans Christian Andersen pela palavra e pela imagem
(Continuação)

Não é de estranhar, pois não foi Andersen afinal uma espécie de tio-avô das crianças de todo o mundo, como lhe chamou certa vez, e com extrema propriedade, Jorge Listopad ?

E de resto, aquela ideia do biombo fora-lhe inspirada por uma dobragem em papel, com a qual uma sua pequenina amiga o presenteara. Se bem que na sua vasta obra literária os livros destinados a um público adulto sejam numerosos : "O Improvisador", "Uma viagem a pé a Amager", "O Livro de Gravuras sem Gravuras", narrativas de viagem como "Bazar de Poeta", "Na Suécia", "Em Espanha", “Uma visita em Portugal em 1866", e alguns livros de poemas, nenhum deles iguala em popularidade a que veio a conquistar com as histórias que escreveu para a infância.

É certo que no seu tempo já muito havia sido editado, pois os contos tradicionais recriados por Perrault e pelos Irmãos Grimm haviam então logrado ultrapassar as barreiras do tempo. Ainda assim, e porque se tratava de contos tradicionais, os personagens recrutavam-se no mundo dos adultos, ou pelo menos entre a adolescência e a juventude : A Gata Borralheira, Pele de Burro, Branca de Neve, Rapumzel são jovens que vão ao baile, ou são pedidas em casamento por alguém. Capuchinho Vermelho e Polegarzinho são excepções àquele grupo etário.

Pelo contrário, nas histórias imaginadas por Andersen domina o mundo da infância. A excepção é precisamente a inversa : Elisa, irmã dos onze príncipes-cisnes, a princesa que paga em beijos a posse de uma caixinha de música, a sereiazinha representam a adolescência, entre uma população infantil muitíssimo mais numerosa: meninos que escutam histórias; brincam nas ruas e nos campos; trabalham também penosamente como a pequena vendedeira de fósforos; sonham coisas maravilhosas quando o elfo Ole Lukdje, equivalente ao nosso João Pestana e ao Marchand de Sable da mitologia infantil francesa, lhes propicia o sono; dançam em redor de abetos iluminados ou de fogueiras festivas; e paralelamente o mundo inanimado dos brinquedos e dos objectos familiares torna à vida pela sua mão: soldadinhos de chumbo, caixas-surpresa donde saltam inesperadamente bonecas de mola, piões e bolas, lindas bonecas que dançam com as flores, figurinhas de loiça que fogem do seu lugar sobre a pedra do fogão de sala, almofadas, tachos, caixas de fósforos, bules, panelas, vassouras, relógios, mealheiros, bonecos de neve, tudo se movimenta à hora em que os humanos adormecem, e vivas estão as suas alegrias e triunfos, os seus amores e as suas mágoas.

De igual modo, os seres vegetais desempenham na obra de Andersen o papel que em contos de outros autores cabe aos homens: o linho, as árvores, as cinco ervilhas da mesma vagem cujo destino é diverso como se de cinco irmãs com vidas diferentes se tratasse, as flores que já atrás referenciámos.

E se do reino vegetal passarmos ao reino animal, encontraremos ratinhos e toupeiras, cegonhas, rouxinóis e andorinhas, mosquitos e baratas, galinhas e perus, patos e sapos; e cisnes evidentemente .

Nem lobos, nem leões ou ursos. Dir-se-ia que Andersen teve o cuidado de não amedrontar os seus pequenos ouvintes ou leitores, apresentando-lhes sempre animais familiares e inofensivos, como que para lhes despertar a ternura pela sua fragilidade. Não se julgue, porém, que lhes quis poupar o contacto com a realidade do sofrimento sempre presente no mundo.

Andersen que o experimentou dolorosamente na infância, primeiro pela morte do pai, em seguida com o segundo casamento da mãe, mais tarde através de humilhações sofridas ao tentar a carreira teatral e na escola que tardiamente frequentou, sabia-lhe o travo amargo, e conhecera também a fome num lar onde o dinheiro sempre foi escasso; e frio é ainda muito provável que o tivesse sentido no corpo mal defendido pelas roupas de menino pobre. Não admira, pois, que vários dos protagonistas dos seus contos se debatam com situações muito semelhantes à sua: Gerda e Kay sofrem a aragem gelada no país da Raínha das Neves; a vendedeirazinha de fósforos morre de frio numa noite de Ano Novo; Karen expia na carne a vaidade de desejar uns sapatos vermelhos; o patinho feio, desdenhado pelos restantes animais da quinta e incompreendido das próprias crianças que se riem do seu desastrado comportamento, passa igualmente um inverno de agruras físicas meio entorpecido pelo gelo; o rouxinol é abandonado por aqueles que anteriormente o haviam cumulado de louvores e honrarias, tal como o abeto de Natal relegado para o sótão após a festa; Elisa sacrifica a voz e a reputação à salvação dos irmãos; do mesmo modo que a sereiazinha fica muda em troca da forma humana com que julga conquistar o amor do príncipe; a cotovia morre prisioneira, e o malmequer murcha depois de lhe ter dado a última gota da sua seiva.
Mas nenhuma destas formas de sofrimento é inútil. Todas elas são recompensadas com uma felicidade, terrena ou sobrenatural.


 

Ilustração de Mikhail Fiodorov

2005 BIBLIOTECA NACIONAL. Todos os direitos reservados