Hans Christian Andersen: 1805-1875. EXPOSIÇÃO NA BN DE 3 DE MARÇO A 14 DE MAIO DE 2005
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SOBRE A EXPOSIÇÃO
 

Evocar Hans Christian Andersen pela palavra e pela imagem
(Continuação)

Espírito profundamente religioso, Andersen encara o sofrimento e a morte sem recusa, antes com serenidade e certeza de uma transfiguração. Num e noutro caso, sofrimento e morte são apenas situações transitórias, pelo que, longe de acabrunharem o leitor, lhe fazem entrever um futuro de esperança. Interroguemo-nos se a leitura actual dos contos de Andersen não será, numa sociedade que tem feito do prazer o seu objectivo número um, a recuperação de outra espécie de valores até agora marginalizados. Pessoalmente, no entanto, costumo desaconselhar alguns deles aos educadores que trabalham com crianças em jardins de infância. "A Pequena Vendedeira de Fósforos" parece-me perigosa em meios economicamente carenciados, porque o deslumbramento que sucede ao acender de cada um dos fósforos, pode ser convite à experimentação numa idade em que o imaginário é tão forte que tudo julga realizável. Em contrapartida, a leitura do mesmo conto feita a ou por crianças um pouco mais velhas e pertencente a um meio sócio-económico elevado, constituirá porventura uma forma de sensibilização para as desigualdades sociais e o sofrimento alheio.

Uma outra forma de sofrimento pela qual Andersen foi provado: a desilusão sentimental.

Sabemos que por quatro vezes esteve profundamente apaixonado, sem que o seu amor conseguisse encontrar eco. Riborg Voigt, primeiro amor da adolescência, irmã de um amigo, terá sido a grande paixão da sua vida, a ponto de ter conservado até á morte (durante 45 anos !) uma carta dela guardada numa pequena bolsa que sempre trazia consigo. O segredo dessas palavras mais ninguém o conheceu, porque piedosamente os amigos do escritor queimaram a carta sem a ler, assim que Andersen expirou.

Luísa, a filha do conselheiro Collin a quem Andersen deveu a protecção que lhe abriu o caminho da fama, ter-lhe-ia despertado um amor-gratidão porque era ela a sua confidente e mais dilecta amiga. Mas tal como Riborg, também Luísa casa com outro e não pode dispensar a Andersen mais do que ternura de irmã-adoptiva. Sofia Orsted, filha do grande físico dinamarquês de quem Hans Christian Andersen era amigo, inspirou-lhe igualmente «um afecto mais profundo do que uma simples relação de estima, e pela terceira vez ele se vê preterido ou talvez mesmo ignorado.
Por último, e já em anos de maturidade é a Jenny Lind, bela e formosa cantora sueca que dedica ternos sentimentos, mas Jenny sabe mante-lo à distância e não lhe alimenta esperanças.

Pobre Andersen ! Também aqui ele se projecta nos contos que escreve: "A Sereiazinha" morrendo de amor pelo seu príncipe, "O Valente Soldadinho de Chumbo" fiel à bailarina, "O Boneco de Neve" que sustenta um amor ardente pelo fogão, verdadeiro amor de perdição que o leva ao aniquilamento, Rudy e Babette separados pelo cruel encantamento da virgem das neves.

Consola-se, recortando corações de papel... Frágeis corações que o vento leva para longe de si.

E se os personagens literários reflectem a sua alma dolorida, certos personagens recortados também o representam fisicamente. Estou a pensar nos numerosos pierrots, a que atrás fiz referência. Todos eles com o seu perfil: nariz desmedido, e um pouco ridículos.

Porque em Andersen há seu quê de chaplinesco. Mistura de drama e de burlesco que lhe vem da sua sensilbilidade em carne viva e de certas bizarrias de comportamento. Por exemplo, um terror infantil dos ladrões que o colocou por vezes em situações de um cómico irresistível. Por exemplo, um medo pânico de fogos que o levava a transportar sempre na bagagem alguns metros de sólida corda... para o caso de se ver obrigado a sair por uma janela, se acontecesse declarar-se incêndio em qualquer hotel ou residência onde se alojava durante as suas viagens pelo país ou fora dele ! Grandes mãos, pés enormes, boca amplamente rasgada, nariz proeminente... Andersen, palhaço triste que faz rir e chorar os meninos de todos os continentes. Porque, se muitos dos seus contos estão impregnados de profunda melancolia (nunca amargura ) noutros a veia humorística surge quando menos se espera.

São as ratazanas sentenciosas e burguesas a quem só interessam histórias de queijos e chouriços; são as galinhas mexeriqueiras ampliando de bico em bico um acontecimento tão natural como a queda de uma pena e transformando-o em escândalo social; é o rei vaidoso e ridículo passando em camisa ou nu por entre alas de povo tão tolo como ele; é o avô chinês quebrando a cabeça de loiça e ficando impossibilitado de acenar afirmativamente porque lha haviam colado, tornando-a fixa; é o velhote aldeão que vai à feira e faz sucessivas trocas ruinosas, chegando a casa apenas com meia dúzia de maçãs bichosas, mas entusiasticamente aplaudido pela consorte tão optimista como ele; e que divertida a história daquele colarinho postiço que se apaixona sucessivamente por uma liga, um ferro de engomar (que na língua dinamarquesa é substantivo do género feminino) uma tesoura e uma escova, mas que de qualquer delas só recebe desdéns e troças!

Singular maneira de se rir ele próprio dos seus amores frustrados?

 

 

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