Hans Christian Andersen: 1805-1875. EXPOSIÇÃO NA BN DE 3 DE MARÇO A 14 DE MAIO DE 2005
Cronologia
O CONTISTA A VIAGEM A PORTUGAL
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SOBRE A EXPOSIÇÃO
 

Evocar Hans Christian Andersen pela palavra e pela imagem
(Continuação)

Mas creio que excelentes traços do seu bom humor se espelham também nos cadernos de viagem onde ficaram registados flagrantes da vida quotidiana que colhia ao percorrer os países visitados.

Como também foram sublinhadas as suas impressões de viagem pelos desenhos numerosos, aproximadamente 320, uns a lápis, outros à pena que exprimem a sua reacção perante paisagens e monumentos admirados, ou cenas inesperadas que se ofereceram aos seus olhos de turista.

Sem que possuísse uma técnica segura, nesses bosquejos despretenciosos revela contudo uma intuição artística digna de nota, que mereceu de Van Gogh elogioso apreço.

Da sua viagem a Portugal conhecemos um esboço do Aqueduto das Águas Livres sobrepondo-se ao Vale de Alcântara e que se avistava da Casa do Pinheiro, propriedade da família O'Neill da qual fora convidado. Pena foi que, tendo percorrido vastas zonas do nosso país, nomeadamente Aveiro, Coimbra, Sintra e a margem sul que abarca de Setúbal, Tróia à Arrábida e Palmeia, delas não tivesse ficado a recordação traduzida nesses apontamentos tão pessoais que os turistas de hoje apressadamente substituem pelo slide colorido.

Aliás, é curioso que Andersen muitas vezes traçava esses esboços nas próprias cartas que escrevia aos amigos, fazendo-os partilhar consigo o encanto de um trecho paisagístico e a emoção que nele havia despertado.

Sensível como era, teria decerto ficado comovido com a interpretação que ao longo de um século os artistas plásticos de vários países têm dado aos seus contos, como talvez sentisse também um arrepio de indignação perante o mau gosto de tantas outras ilustrações que desvirtuam por completo o conteúdo dos textos que escreveu. Creio que na primeira categoria poderíamos situar a finlandesa Kaarina Kaila que tão enternecidamente traduz a suavidade melancólica dos principais contos de Andersen. Utilizando quase exclusivamente os azuis esfumados e um sépia rosado, as ilustrações que realizou são, na poesia da sua representação gráfica, dignas da expressão verbal poética do autor.

Li algures uma citação de Simónides: "Pintura é a poesia silenciosa. Poesia, uma pintura da voz".

E em Fernando Pessoa, algo semelhante: que a pintura é a poesia das cores, como a poesia é a pintura das palavras. (Cito de cor, sem garantir o rigor da referência, apenas conservando a fidelidade do significado).

De qualquer modo, creio que aqueles conceitos se ajustam perfeitamente à obra de Kaarina Kaila e de Hans Christian Andersen. Eis-nos no ponto de tentar fazer agora uma abordagem da linguagem poética do escritor.

Como não sei dinamarquês, e penso que poucos dos leitores dominam essa língua, estamos todos em igualdade de circunstâncias por apenas conhecermos a sua obra através de traduções que do francês ou do inglês se fizeram para a língua portuguesa. E assim, apreciamos o seu estilo mais pela sua capacidade descritiva do que pela sintaxe e pontuação usadas na língua original, as quais fazendo fé no que escreve Lotte Eskelund, têm sido abusivamente corrigidos pelos tradutores. Ao que parece, Andersen, escolarizado tardiamente, nunca foi rigoroso cumpridor das regras da gramática, preferindo-lhes uma liberdade de construção da frase extremamente original. Lembro a exigência com que a escola primária nos aplicava a executar o desenho caligráfico de vogais e consoantes, para, muitos anos passados, cada um de nós ter encontrado a sua caligrafia pessoal, tantas vezes quase ilegível mas pela qual nos identificamos. Tal como o estudantinho de piano se vê forçado a colocar mãos e dedos numa posição considerada ideal, mas se chega a afirmar-se como verdadeiro pianista, espalma-as livremente, estende-os ou encurva-os como sente que melhor sonoridade arrancará das teclas.

Assim, o escritor não precisa de ser o aluno que redige segundo as normas oficiais mas encontra a maneira própria de se exprimir, liberto daqueles entraves. Andersen assim fez. Mas se a sua sintaxe e pontuação nos chegaram alteradas, felizmente isso não aconteceu com a sua imagética.

"Lá longe, longe no meio do mar a água é tão azul como as pétalas das centáureas, pura como o vidro mais transparente, mas tão profunda que seria inútil tentar ali lançar âncora, sendo necessário para medir a distância do fundo à superfície, empilhar uma quantidade infinita de campanários de igreja, uns postos sobre os outros."

Assim nos introduz ele no reino da sereiazinha.
Os fósforos da cozinha narram aos restantes utensílios a sua infância vegetal na floresta, dizendo:
"Todas as manhãs e todas as noites nos era servido chá de diamante...Era o orvalho",
explica Andersen.
A neve e o gelo inspiram-lhe metáforas delicadas:
"Estava-se no Inverno. Lá fora a neve rodopiava em milhares de flocos.
– São abelhas brancas. - disse a avó." (A Rainha das Neves)
– "As árvores e os arbustos estavam cobertos de geada: dir-se-ia uma floresta de coral branco." (O Homem das Neves)
Os patinhos recém-nascidos, descobrindo o mundo, "olhavam para os lados, espreitando sob as folhas verdes, e a mãe deixava-os à vontade, pois o verde alegra o olhar. (O Patinho Feio)
Um pôr-do-sol é por Andersen descrito desta forma mítica:
"Todas as tardes elas (as donzelas dos raios de sol) se dispõem em círculo sobre o cume dos montes, abrindo as suas asas que se vão avermelhando cada vez mais, à medida que o sol desce no horizonte, envolvendo os Alpes numa auréola de chamas". (A Virgem das Neves)
Azul, branco, verde, vermelho. Cores em caleidoscópio que o Autor pintou com as palavras.
Natal de Andersen em Abril.
Floriam as roseiras da mansarda quando Kay e Gerda regressaram do país gelado, e vieram encontrar a avó sentada a ler a Bíblia em voz alta. Para eles. Para nós: " Se não vos tornardes como as crianças não entrareis no reino dos céus."

Maria Isabel de Mendonça Soares, 3 de Abril 1985


 

 

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