Hans Christian Andersen: 1805-1875. EXPOSIÇÃO NA BN DE 3 DE MARÇO A 14 DE MAIO DE 2005
Cronologia
O CONTISTA A VIAGEM A PORTUGAL
OS CONTOS EVOCAR HC ANDERSEN
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SOBRE A EXPOSIÇÃO
1 - A PARTIDA DE COPENHAGA : Janeiro de 1866 2- A CHEGADA A LISBOA: A estada em casa da família O'Neill 3 - A VISITA A SETÚBAL: A Quinta dos Bonecos 4 - A PASSAGEM POR AVEIRO: A Holanda Portuguesa 5 - COIMBRA TEM MAIS ENCANTO: A Mais Bela Cidade Portuguesa 6 - INIGUALÁVEL SINTRA: Verde Luxuriante 7 - O REGRESSO A COPENHAGA: Setembro de 1866 8 - IMPRESSÕES DE VIAGEM

Chegada a Lisboa
A Estada em Casa da Família O'Neill

Reconforta-se no Entroncamento e às quatro horas do dia 6 de Maio de 1866 chega a Lisboa onde o «amável e cortês» companheiro de viagem o conduz ao «Hotel Durand», perto da Rua das Flores. Era domingo, a família O'Neill não estava na cidade, mas sim na «Quinta do Pinheiro», a meia milha de Lisboa. Tendo decidido por alugar uma carruagem, para lá se dirige Andersen.

Inesperadamente, o escritor dinamarquês bate ao portão da «Quinta do Pinheiro» e alcança o propósito da sua viagem, encontra o amigo Jorge O'Neill, conhece a esposa, D. Carolina Teresa O'Neill e os filhos Jorge e Artur. Recorda os velhos tempos de Copenhaga. Jorge estava naturalmente mais velho mas «os olhos tinham o mesmo brilho da juventude». Repousa, refaz-se da viagem e dá-se a descrever detalhadamente a casa e a quinta onde vai ser hóspede por algum tempo. Tudo anota com singular minúcia de interessado viajante. O Aqueduto das Águas Livres na cercania da quinta, desperta-lhe a atenção e dele faz mesmo um desenho na margem duma carta para Henriette Collin. Com o seu sentido romanesco, sempre pronto a captar uma aventura ou uma história estranha, transcreve o que ouviu contar de bandidos no Aqueduto. «Nos diversos cambiantes de luz, quando as nuvens suspendiam o seu véu de chuva sobre a terra, quando o sol luzia num céu límpido, ao entardecer, quando o matiz brilhante do arco-íris se espelhava no céu, como ainda iluminado pelo luar, o aqueduto era uma imagem majestosa e imponente que dominava toda a paisagem».

Deslumbra-se com a magnificência da floração no jardim, e pela primeira vez na Visita (como adiante nos momentos de exaltação), transborda em poesia:

«Como tem este país todos os encantos !
Da Dinamarca, a terra, as searas, os verdes campos,
O cacto, a oliveira, no Sul abundante,
Ares tão puros, raios de sol brilhantes.»

Faz excursões nas proximidades, vai ver «um palácio com grandes jardins, pertencente ao filho dum rico banqueiro», certamente do Conde de Farrobo então em ruínas, admira o solar e jardins do Marquês da Fronteira que o recebe, apresentado por O'Neill, ouve cantar as freiras num convento (Odivelas?), percorre as áleas do cemitério do Alto de S. João, dá um passeio de carruagem nas cercanias de Lisboa.

Normaliza-se a vida em casa dos O’Neills. «Senti-me em breve familiarizado com os arredores de «Pinheiro» e com a casa em especial. A Senhora O'Neill contava-me interessantes recordações da infância, dos tempos de D. Miguel. O filho mais velho, Jorge, que tocava muito bem piano, andava a estudar com grande interesse pela natureza e logo nos tornámos bons amigos. O mais novo, Artur, um belo rapaz hábil no volteio e na caça, ausentava-se frequentemente com o seu cavalo, gostando da vida ao ar livre. O pai, o meu amigo Jorge O’Neill, passava todo o dia, salvo aos domingos, nos escritórios, mas à tardinha voltávamos a vê-lo, sempre alegre e bem disposto. Falávamos em dinamarquês dos velhos tempos da Dinamarca». Aos serões fazem música.

Entretanto, Andersen lê livros sobre Portugal, em inglês e alemão, tenta começar um conto, traduz com a ajuda da preceptora Frl. Wittnick dois contos seus para os amigos. Deleita-se na Visita com a hospedagem que lhe proporcionam. «São realmente excelentes pessoas e o meu anfitrião e amigo, Jorge, é uma verdadeira pérola em educação e cordialidade» — escreve para a Dinamarca. Contudo, regista no Diário: «começo a desejar uma mudança» e «sofri hoje de «spleen».

Diferente é a realidade da imagem que formara de Lisboa pelas descrições que lera. «Mais luminosa e bela» é essa realidade. «Onde estão as ruas sujas que vira descritas, as carcaças abandonadas, os cães ferozes e as figuras de miseráveis das possessões africanas que, de barbas brancas e pele tisnada, com terríveis doenças, por aqui se deviam arrastar ?» Nada disso. As ruas são «largas e limpas», as casas «confortáveis com as paredes cobertas com azulejos brilhantes de desenhos azuis sobre branco» e as portas e janelas de sacada «são pintadas a verde ou a vermelho, duas cores que se vêem por toda a parte, mesmo nos barris dos aguadeiros». Há vida e movimento.

O monumento a Camões vai ser reerguido numa praça de Lisboa e Andersen evoca a figura do grande poeta de que já em 1855 se ocupara em «Caminhos Espinhosos da Honra», onde trata o tema dos génios desprezados em vida. Indica superficialmente as tendências da literatura portuguesa, terminando com uma biografia sucinta de Feliciano de Castilho, consorciado com D. Carlota Vidal, filha do Cônsul de Portugal em Helsenor e tradutor de alguns poetas dinamarqueses em «Excavações Poéticas».

Visita o «considerado» escritor português que lhe retribui a visita na «Quinta do Pinheiro». Aos belos olhos da filha faz uma saudação poética : «Eram de noite as estrelas a minha alegria, / Mas agora as vi também no claro dia. /» Os dois escritores carteiam-se. Castilho mostra-se encantado de o ver em Portugal: «Que je suis charmé de savoir que vous vous trouvez heureux chez nous ! À Ia verité, cê pauvre petit Portugal, cette douce Parthénope de Midi, est tout ce qui convient le mieux à un poete tel que vous». «Entre as recordações que guardo», — diz depois Andersen na Visita — «conto algumas cartas de Castilho ditadas em francês, que pôde apenas assinar. As minhas cartas para ele foram escritas em dinamarquês, sendo as suas sempre em francês. Numa delas diz Castilho: «Falamos um com o outro como Píramo e Tisbe, a minha mulher é o muro».

Visitam-no nacionais e dinamarqueses em Lisboa, os jornais trazem a notícia da sua estada em Portugal e é apresentado como o «ilustre poeta dinamarquês, o Comendador» Andersen, pois fora recentemente galardoado em Paris com a Cruz de Comendador da Ordem de Guadalupe pelo Imperador Maximiliano do México.

O rei D. Fernando recebe-o no Palácio das Necessidades (?) : «...alto e de belo porte, veio ao meu encontro, gentil e acolhedor, falou das minhas obras, da minha viagem a Portugal...». Ao regressar da visita protocolar, Andersen resume «em pensamento» os últimos trinta anos da história do país, «onde tantas lutas se deram mas que parece agora caminhar em paz e prosperidade», relatando acontecimentos trágicos da guerra civil.

No dia do Corpo Santo, «que ainda se festeja com grande pompa na capital portuguesa», caíram fortes chuvas e a procissão por mais duma vez se desordenou. Contudo, pôde aí ver o rei D. Luís. «Era um belo jovem, muito louro, com um rosto especialmente doce, vestido de veludo e seda».

Ampliar obra

Passámos pelo Passeio Público. Luzes brilhavam lá dentro, por entre as árvores verdes e odorosas. Chegava até nós o som da música.
H. C. AndersenUma visita em Portugal em 1866

1 - A PARTIDA DE COPENHAGA : Janeiro de 1866 2- A CHEGADA A LISBOA: A estada em casa da família O'Neill 3 - A VISITA A SETÚBAL: A Quinta dos Bonecos 4 - A PASSAGEM POR AVEIRO: A Holanda Portuguesa 5 - COIMBRA TEM MAIS ENCANTO: A Mais Bela Cidade Portuguesa 6 - INIGUALÁVEL SINTRA: Verde Luxuriante 7 - O REGRESSO A COPENHAGA: Setembro de 1866 8 - IMPRESSÕES DE VIAGEM
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