Hans Christian Andersen: 1805-1875. EXPOSIÇÃO NA BN DE 3 DE MARÇO A 14 DE MAIO DE 2005
Cronologia
O CONTISTA A VIAGEM A PORTUGAL
OS CONTOS EVOCAR HC ANDERSEN
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SOBRE A EXPOSIÇÃO
1 - A PARTIDA DE COPENHAGA : Janeiro de 1866 2- A CHEGADA A LISBOA: A estada em casa da família O'Neill 3 - A VISITA A SETÚBAL: A Quinta dos Bonecos 4 - A PASSAGEM POR AVEIRO: A Holanda Portuguesa 5 - COIMBRA TEM MAIS ENCANTO: A Mais Bela Cidade Portuguesa 6 - INIGUALÁVEL SINTRA: Verde Luxuriante 7 - O REGRESSO A COPENHAGA: Setembro de 1866 8 - IMPRESSÕES DE VIAGEM

Andersen em Portugal
Silva Duarte

Partida de Copenhaga, Janeiro de 1866

Hans Christian Andersen esteve em Portugal de 6 de Maio a 14 de Agosto de 1866. Da sua viagem ao nosso país, como fez das muitas outras que realizou, aquele que foi um dos maiores viajantes do seu século, deixou um relato — a obra Uma Visita em Portugal em 1866 (1) (Et Besolg i Portugal 1866), constituindo o volume 27 das Obras Completas publicadas em 1868 (Samlede Skrifter af H. C. Andersen, C. A. Reitzel, Copenhaga, 1868), que não veio a ter posterior edição. Anteriormente, porém, escreveu no Figaro de 1866, durante a sua estada no nosso país, as suas impressões sobre Lisboa e Setúbal, em cartas para Robert Watt, publicadas nos n.os 35 e 50 desse jornal. As partes respeitantes a Aveiro e Coimbra foram publicadas em For Romantik og Historie de H. P. Halst, I, 1868, antes de as utilizar na descrição completa da viagem. Curiosamente, em cartas escritas de Portugal para a Dinamarca, proibiu expressamente a publicação destas, assim mostrando a intenção de escrever uma obra sobre o nosso país. A visita que nos fez, encontra-se também resumida em História da Minha Vida (Mit Livs Eventyr).

No seu diário íntimo encontram-se anotações dispersas colhidas durante o tempo que em Portugal se demorou. Foi essencialmente com base neste diário e na Visita que Hans Aage Paludan publicou na revista Edda (vol. 33), em 1933, um completíssimo estudo da estada do grande contista dinamarquês entre nós, anotando-o com todos os elementos que em Portugal e na Dinamarca pôde encontrar. Neste ensaio destaca com frequência o contraste entre o que Andersen escreveu no diário íntimo e na Visita, tentando assim demonstrar que nem sempre tudo foi «idílico», como o escritor faz crer nesta última obra. Em Portugal constatou ainda Paludan que muita correspondência de Andersen se havia perdido.

Na Dinamarca guardam-se algumas recordações da viagem de Andersen a Portugal, na Biblioteca Real de Copenhaga e na Casa-Museu de Andersen em Odense, como o desenho do Aqueduto das Águas Livres feito pelo contista numa carta para a S.a Henriette Collin, uma carta de Castilho, o passaporte de Andersen utilizado na viagem a Portugal, a conta das despesas dessa viagem, um pedaço de cortiça levado de Setúbal.

Como veio à mente de Andersen realizar uma viagem a Portugal? A história começa com o conhecimento de dois portugueses em Copenhaga, José e Jorge O'Neill, nos tempos da juventude, quando ainda aprendiz de belas letras e quase ignorado. O encontro deu-se em casa do Almirante Wulff onde os dois irmãos estavam instalados, idos para a Dinamarca para aprenderem o idioma deste país. Aí se demoraram por quatro anos, durante os quais Andersen manteve contacto com eles, tendo depois os dois portugueses partido para a Suécia e regressado ao Reino. Alguns bons anos volvidos, Andersen já escritor mundialmente consagrado, recebe o pedido duma recomendação para Portugal dum compatriota que vai fazer uma viagem à Península. O contista lembra-se do amigo de juventude, Jorge O’Neill, então já cônsul da Dinamarca em Lisboa e escreve-lhe, recebendo pronta e amável carta que felizmente se conserva.

O'Neill convida-o com entusiasmo a ver o seu país («...o nosso pequeno Portugal é um país muito interessante...») e incita-o a empreender a viagem («alma y adelante — ce n'est que le premier pas qui conte»). E diz Andersen na Visita: «...a que se seguiram outras cartas, renovando nos mais calorosos termos o convite de ir eu também visitá-lo, ver a sua bela pátria, hospedando-me na sua casa e na do irmão, onde estaria como na minha própria, tudo aceitar tão bem quanto sentimentos entusiásticos o prometiam e cumpriram». O convite recebido deixou-o perplexo, tendo registado no diário: «à... noitinha carta de Jorge O'Neill com o seu retrato e convite para ir a Lisboa; despertou-me grande vontade de empreender esta viagem, mas depois veio o receio, quer pela travessia do mar quer pelas dificuldades por terra». Pede conselho aos amigos, estuda as possibilidades, informa-se das ligações de caminho de ferro em Espanha. Hesita e interroga-se. De manhã é pela viagem, à noite receia-a. Aborrecimentos com o Teatro de Copenhaga e a contrariedade sobrevinda de ter de abandonar os aposentos em que há muito estava alojado, concorrem para a decisão duma viagem mas a hesitação prolonga-se. A partida é marcada para depois do Natal, após ter recebido carta de O’Neill que lhe assegura não haver qualquer caso de cólera no país e lhe envia «odorosas violetas de Portugal, como saudação da Primavera, que o espera em Lisboa».

Finalmente parte de Copenhaga em Janeiro de 1866, viaja por Hamburgo, Hanôver, Amesterdão, Antuérpia, Bruxelas e demora-se em Paris até 30 de Abril. Ainda não está seguro de realizar a viagem a Portugal. Parte para Bordéus, onde tem passagem marcada num navio brasileiro com escala por Lisboa, mas o pavor que sente pelo mar, fá-lo recuar. «Não creio verdadeiramente que alguma vez lá irei», escreve numa carta de Bordéus. A apresentação da grande actriz Adelaide Ristori, em «tournée» pela Europa, nesta cidade, leva-o a demorar-se para a ver em «Medeia», o que também lhe serve de pretexto para não seguir de barco. E tendo admirado uma vez mais aquela que é «a encarnação da própria tragédia», parte de caminho de ferro para Espanha para realizar uma viagem «um pouquinho grande demais para um velho cavalheiro, por muito jovem que julgue ser».

Atravessa a fronteira de Espanha para «pisar de novo o solo da pátria romântica de Cervantes e Murillo», onde havia estado em 1862. Fica um dia em San Sebastian, volta a ver a «majestosa catedral de Burgos» e parte para Madrid, onde chega às primeiras horas da manhã e se aloja na «Fonda del Francia», na Calle del Carmen. Mas a capital espanhola não o entusiasma como da primeira vez: «Senti-me mal disposto, deslocado e insatisfeito. Nem os quadros incomparáveis de Murillo e Velazquez conseguiram derramar luz em mim».

A linha de caminho de ferro para Lisboa não estava completa. Havia que fazer uma. parte da viagem em mala-posta e para reservar lugar, demorar-se alguns dias em Madrid cuja população se mostrava agitada, prenunciando os acontecimentos sanguinários de que viria a tomar conhecimento em Lisboa. O Embaixador de Portugal Marquês de Sobral, aconselha-o e presta-lhe serviço.

Parte finalmente da capital espanhola no dia 3 de Maio, quinta-feira à noite, na companhia dum jovem médico português, cujo nome anota no diário como Domingos Garca (Garcia?) Peres e com ele se entende em francês. A viagem em mala-posta até Mérida é esgotante, como bem se pode imaginar, «saltando aos solavancos sobre as pedras e as covas da estrada» e Andersen está convencido de que as suas «forças mal se sustentariam por mais tempo». Melhor instalado no comboio, atravessa a fronteira portuguesa e constatando a diversidade da paisagem natural e humana, exclama: «Que transição, ao entrar em Portugal, vindo de Espanha ! Era como sair da Idade Média para entrar no Presente».


Ampliar obra

As janelas do meu quarto dão precisamente para [...] uma parte do vale de Alcântara, sobre o qual, de construção arrojada e grandiosa, com arcos de altura vertiginosa, se estende o grande aqueduto: “Os Arcos das Águas Livres”. [...]

H. C. AndersenUma visita em Portugal em 1866

1 - A PARTIDA DE COPENHAGA : Janeiro de 1866 2- A CHEGADA A LISBOA: A estada em casa da família O'Neill 3 - A VISITA A SETÚBAL: A Quinta dos Bonecos 4 - A PASSAGEM POR AVEIRO: A Holanda Portuguesa 5 - COIMBRA TEM MAIS ENCANTO: A Mais Bela Cidade Portuguesa 6 - INIGUALÁVEL SINTRA: Verde Luxuriante 7 - O REGRESSO A COPENHAGA: Setembro de 1866 8 - IMPRESSÕES DE VIAGEM
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