Miguel de Cervantes Saavedra o mais destacado escritor espanhol e uma das grandes figuras da literatura de todos os tiempos. Retrato de Eduardo Balaca. |
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Miguel de Cervantes Saavedra foi um génio, e pode-se dizer mesmo o génio do Bom Senso. Na sua obra, cujo herói é um dementado, vibram-se profundos gilvazes a todas as demências humanas: e ela não fere tão vivamente o espírito de todos só porque é cáustica: mas sim porque é causticamente, crudelissimamente, sensata. Daí todo o seu sucesso. Daí toda a perdurabilidade desta obra que não teria um carácter tão imutável se fosse unicamente alegre, ou se fosse simplesmente imaginosa. A imaginação é um grande dom, que tem uma larga influência nos povos infantis: mas o bom senso é uma faculdade rara, quando aliada à imaginação, que se esculpe imperecivelmente nos povos lógicos, nos povos racionalistas, nos povos reflectidos das civilizações adiantadas. Quando, porém, à imaginação e ao bom senso se acrescenta a irresistível, a demolidora Ironia, essa obra toma um carácter mais imutável do que o bronze de Corinto, ou a estátua grega de um mestre, feita com mármore pentélico.
Assim se explica a acolhida que ela tem ainda hoje, como no tempo de Filipe III, e que continuará a alcançar dos nossos pósteros, quando já não restar na memória do homem um hexâmetro grego de Homero, nem um versículo hebraico do Pentateuco de Moisés. Acrescente-se a isto que o seu herói tem o carácter profundamente objectivo, na sua subjectividade, e ter-se-á explicado as causas que fizeram deste livro um monumento verdadeiramente cosmopolita e humano. Neste género, com tais requisitos, só uma obra conhecemos que rivalize com D. Quixote, e que talvez para os espíritos delicados e subtis, se avantaja ainda: é as Viagens de Gulliver, de Swift.
Nesta obra tudo tem um carácter de mais originalidade e de mais subtileza. Sendo eminentemente humana, isto é, sendo uma sátira dum carácter verdadeiramente universal, tem talvez como vantagem para nós, empregar um humour muito mais ático, — se é possível fazer ático sinónimo de delicado, — em vez do grosso sal de cozinha de que em largas doses se serve Cervantes, como condimento. A sua imaginação é decerto muito mais rica: e em bom senso cáustico não lhe fica também, em nada, inferior. Falta porém ao seu herói aquele entusiasmo simpático do D. Quixote , que tanto nos prende a ele, mau grado todas as suas demências, e todas as suas insânias cavaleirosas e andantes. Falta-lhe também aquele já hoje lendário escudeiro de Sancho Pança, cavalgando no seu lendário sendeiro, através dos montes e dos vales de Espanha, atrás do seu cavaleiro, que vai em demanda de gigantes e do elmo de Mambrino: tipo patusco e bon vivant, folião e pantagruélico, tão dementado como positivo, tão burlesco como escudeiro leal, símbolo de burguês de todas as eras, e do materialismo ventrúdo de todos os tempos. A firmeza de traços com que estão pintadas, à Velásquez, estas duas figuras típicas, no meio dos episódios e dos vários acidentes, sem nunca se desmentirem, nem nunca se desmancharem, é decerto dum relevo cómico, que os não torna inferiores, antes os sobreleva aos personagens do teatro de Lope de Vega, ou de Calderón de la Barca.
O herói de Swift é um aventureiro também: não tem, contudo, o mesmo arranque, a mesma viveza, a mesma chispa peninsular do manchego.
É sempre um saxão: e guarda sempre, como este povo, a sua frieza reflectida, o seu espirito de exame, e de ironia tranquila. Assim como, D. Quixote, produto do ibero, povo brigador e aventuroso, é um cavaleiro de aventuras, da mesma forma. Gulliver, produto do saxão navegador, é um marinheiro audaz, e um viajante intrépido, à busca do incognoscível. O aventureiro saxão não é, contudo, um dementado. Conserva no meio dos seus perigos, e dos riscos estranhos, a ingenuidade um tanto feminil desses louros ou ruivos marinheiros bretões, de pescoço branco e de músculos de aço, que sulcam as ondas de todos os mares, conservando na memória e no coração os traços da sua cabana, nas verdes serranias do Erin, ou da Escócia nevoenta, cheia de lendas e de lagos, de onde se evapora a neblina.Mas essa ingenuidade não é destituída de malícia, nem da mordacidade humorística, tão particular ao saxão.
Ambos eles, no entanto, têm o supremo mérito filosófico e ético de, representando cada um, em particular, o tipo especial da sua raça, simbolizarem, em geral, os afectos e as paixões comuns de toda a humanidade.
Como Fausto, como D. João, como Hamlet, como o Misantropo, são eternos, e mais perduráveis que a grande pirâmide do Faraó Ramsés no deserto de Menfis, no Egipto, porque são universais, são humanos.
Não é nosso intento, alongarmo-nos, agora, na análise crítica da obra capital de Cervantes. Convidados, amavelmente, por um nosso amigo dos bancos colegiais, D. José Carcomo Lobo, tradutor desta obra, e tradutor dela tão fiel e vernáculo, quanto o seu talento é modesto e retraído, e pelo seu esclarecido editor, o sr. Fidalgo, a delinear os principais traços biográficos de Miguel de Cervantes, vamos desempenharmo-nos deste encargo, resumindo os factos capitães desta vida tão acidentada.
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