CARVALHO, Maria Amália Vaz de, 1847-1921
D. Quixote : (a collaboração de três séculos na obra de Cervantes)
In : Ao correr do tempo / Maria Amalia Vaz de Carvalho . – Lisboa : Parceria António Maria Pereira, 1906. - p. 183-194
BN L. 11548 P.
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Durante os primeiros dias deste Maio florido de 1905 os prelos de todo
o mundo têm gemido sob o peso de comentários mais ou menos eruditos, de glosas mais ou menos eloquentes, de interpretações mais ou menos
fantasiosas à obra capital de Cervantes.
A nossa Academia Real das Ciências consagrou à novela imortal do cavaleiro
de la Mancha uma sessão brilhante a todos os respeitos e que foi brilhantemente
agradecida pelo conde de la Viñaza, ministro de Espanha nesta Corte,
e novo sócio da nossa Academia.
A imprensa francesa, espanhola, inglesa e portuguesa tem publicado a
respeito do tricentenário da aparição do D. Quixote (1.ª parte na novela) uma
quantidade de interessantes estudos. O Brasil, latino de herança e ligado
por tantos laços de parentesco à civilização ibérica de que é filho e de que
será, em séculos por vir, representante glorioso, e talvez solitário, não podia
deixar de associar-se também a estas manifestações que comemoram uma
data histórica, importantíssima, no mundo do Pensamento da nossa Raça.
Não venho pois trazer qualquer tardia e desfolhada grinalda para os
pés do monumento erguido agora pela palavra e pela escrita ao grande
vulto de Cervantes.
Venho, a propósito do D. Quixote, discretear um pouco com os leitores
acerca da colaboração incessante e variada que os séculos sucessivos vão
tendo na obra de cada Poeta do passado, acerca do que nós todos temos metido dentro das páginas do D. Quixote, independentemente da vontade
e da consciência do seu autor.
Cervantes desenganado, triste, revoltado contra a sorte infeliz e contra
a fortuna ingrata, preso em virtude de não sei que intriga reles em que
o tinham injustamente culpado, lembrou-se, para iludir as tristezas do
cárcere, de escrever um romance satírico contra as novelas de cavalaria,
cuja extravagância, cujo mau gosto, cuja exageração grotesca tinham assumido àquele tempo um grau intolerável.
Cervantes julgava ter escrito belíssimas coisas – dramas, comédias,
romances, etc., hoje inteiramente esquecidas; mas como tinha a soberba
inconsciência do génio, o qual, como a Natureza, nunca sabe o que tem
a referver, a germinar, a desabrochar, a crescer nos seus seios ubérrimos,
ele não percebeu ao escrever o D. Quixote que fazia a sua obra única, a sua
obra imortal, aquela que lhe deu direito a entrar na legião rara e luminosa
dos nomes que não se apagam mais nos céus da inteligência humana;
a obra que enriquecia o mundo com uma figura muito mais real do que
as miríades de criaturas que até ali e dali em diante nasceriam e morreriam
nele; aquela que fez de Cervantes a alma mais querida e mais luminosa
da terra em que nasceu e que tão hostil e tão desamorável foi à sua
forma mortal!… Hoje o centenário de Cervantes ilumina de alto esplendor
essa Espanha onde ele teve fome e sofreu perseguições e inclemências!
Cervantes, ao pegar na pena para escrever esse extraordinário panfleto
contra a literatura ridícula e falsa dos seus contemporâneos, ignorava
absolutamente a coisa enorme, a coisa genial que ia fazer!
Sem dar por isso, ele ressuscitava em si o ideal extinto da antiga pátria
de Cid e metia-o da maneira mais original e mais profundamente cómica
na alma do seu magro cavaleiro, criando assim um anacronismo, vivo.
Fazia dele um verdadeiro herói sem meio adequado a mover-se.
E no seu livro, cheio de vida e cheio de intensa objectividade, introduzia
a pouco e pouco – pelo processo que o amplia e o torna numa
espécie de espelho do mundo, – não só tudo que sabia pelas leituras feitas
com avidez durante a sua vida errante, como também tudo que conhecia
directamente pela observação que em certas naturezas privilegiadas é
fecunda como a própria criação, e tudo que sofrera de desilusões e desenganos
e tudo que imaginara, com aquela extraordinária e pujante fantasia
que faz dele uma espécie de semideus!
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