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Biografia de Miguel Cervantes D. Quixote Ilustradores de Dom Quixote
O quixote, breve História de uma longa tradição

Historia de D. Quixote de la Mancha / por Miguel Cervantes de Saavedra; [grav. de Martí]. – Lisboa: Typ. Universal, 1853. BN L. 3775 V.

Portugal ocupa um lugar de honra dentro da representação iconográfica do Quixote, uma vez que os primeiros testemunhos conhecidos em que é dado ao cavaleiro um aspecto visual são portugueses e pertencem ao mesmo ano da publicação do romance de Cervantes. Efectivamente, a edição lisboeta de Jorge Rodríguez, não autorizada, tem na capa uma ilustração onde um cavaleiro empunhando a espada avança acompanhado pelo seu servidor, que vai a pé: não importa que se trate de uma gravura original pretendendo representar os protagonistas do livro, ou mais uma capa, como tantas outras, daquelas que eram utilizadas para atrair o leitor para os livros de cavalarias...

Também no mesmo ano da publicação do livro está documentada a existência de um imitador do fidalgo manchego nas festas que celebravam em Valhadolid o nascimento do herdeiro Filipe IV de Espanha: era o mês de Junho de 1605 e mal haviam decorrido seis meses do começo da circulação da aventura impressa de Dom Quixote, e um nobre português teve a ideia de aparecer vestido com as mesmas armas, montando um cavalo baço e acompanhado por um escudeiro que apenas podia ser Sancho Pança. Supomos, ainda, que a sua atitude, bem como as suas vestes a e a sua mera figura, devem ter provocado o riso e a troça por parte do público reunido naquela que era naquela época a capital do reino.

Inicia-se, assim, a presença visual de Dom Quixote, que não demorará a adquirir atributos caracterizadores, por muito que os diferentes artistas, escolas e épocas o representem de acordo com uns gostos estéticos assaz díspares. Não é o caso de Portugal uma excepção, pois em 1607 a chegada do vizo-rei a Cuzco (Peru) é festejada com uma recepção em que tomam parte Dom Quixote e Rocinante, Sancho, o cura, o barbeiro e a princesa Micomicona. Do mesmo modo, a cidade de Heidelberg (Alemanha) preparou festas semelhantes em 1613 para festejar a entrada de Isabel Stuart e o eleitor palatino Frederico V, que tinham acabado de unir-se em casamento: no torneio que teve lugar nessa ocasião, esteve presente um Cavaleiro da Triste Figura, arremedo da personagem literária. A popularidade de Dom Quixote vai crescendo, como põem de manifesto as edições que se vão multiplicando e a presença da personagem nas festas das cortes espanholas e estrangeiras. As palavras de Sancho transformaram-se numa realidade evidente:

[...] que antes de muito tempo não há-de haver albergaria, nem estalagem, nem tenda de barbeiro por onde não ande pintada a história de nossas façanhas (II, LXXI).

Claro que Sancho apenas pensava nos domínios que a sua curta experiência vital era capaz de atingir; mas o facto objectivo é que os palácios e as casas dos nobres também desfrutaram da presença iconográfica das nossas personagens. Surge deste modo uma nova vida do cavaleiro andante, fora da letra impressa, com vicissitudes e aventuras alheias à obra de Cervantes: gera-se uma redução ou concentração de elementos caracterizadores; é na efectividade da caracterização que assentará o sucesso dela, ou em outras palavras, alguns poucos traços deverão servir para que o público reconheça de imediato o protagonista do volumoso livro e, ao reconhecê-lo, veja todas as suas virtudes e defeitos nele plasmadas. É um herói a quem não é pedido agir, ou que represente na vida real as mesmas acções – todas e cada uma delas – que leva a cabo no romance; ele deve apenas encarnar a personagem da ficção literária, num processo fundamental destinado a dar um aspecto concreto a tudo aquilo que permaneça indeterminado, preenchendo uma parte dos espaços vazios do texto.

De facto, por mais exactas que sejam as descrições que Cervantes faz da figura de Dom Quixote, ou da de Sancho Pança, muitos são os pormenores deixados em liberdade para a imaginação do leitor; a representação visual não deixa nenhum pormenor ao acaso, assim configurando um estereótipo que chegará a transformar-se em tópico, ou não, em função do seu êxito. Neste processo, o êxito é marcado pela aceitação do público: o modelo deve colmatar as expectativas formadas pelos leitores e explorar os aspectos mais representativos transformando-os no símbolo da personagem, nos seus atributos essenciais. Parece não haver dúvidas quanto ao facto de que logo a partir dos primeiros imitadores se começou a impor a imagem de um cavaleiro magro com uma bacia de barbeiro na cabeça e montado num cavalo todo ele pele e ossos, cheio de manchas (I, I), pileca alongada e estendida, tão descarnado e tão magro, com tanto espinhaço, tão tísico, «que mostrava bem a descoberto quão avisada e propriamente lhe fora posto o nome de Rocinante» (I, IX) triste e melancólico, com as orelhas caídas, que parecia de pau (I, XLIII), de acordo com as palavras de Cervantes:

A idade de nosso fidalgo rasava os cinquenta anos. Era de compleição rija, seco de carnes, enxuto de rosto... E o que primeiro fez foi limpar umas armas que haviam sido de seus bisavós, que, cobertas de ferrugem e cheias de mofo, estavam havia longos séculos postas e esquecidas a um canto. Limpou-as e reparou-as o melhor que pôde; mas viu que tinham uma grande falta, e era que não tinham celada de encaixe, mas morrião simples...

Mais à frente, Dom Quixote irá substituir o morrião simples pela bacia e tomará os serviços de um escudeiro de «barriga grande, o tronco curto e as ancas fartas» (I, IX). Poderíamos, ainda, chegar a pensar que o manuscrito de Cide Hamete Benengeli comprado por Cervantes no Alcaná de Toledo por menos de meio real (I, IX), apresentava já as primeiras ilustrações do cavaleiro, o escudeiro e o rocim, e com essas ilustrações um primeiro modelo iconográfico:

Pintada muito ao natural... a batalha de Dom Quixote com o biscainho, postos na mesma postura que a história conta, levantadas as espadas, um cobrindo-se com a sua rodela, o outro com a almofada... Estava Rocinante maravilhosamente pintado.

Seja como for, a verdade é que poucos anos depois, já Calderón de la Barca, no Alcalde de Zalamea (acto I, vv. 213-219), dá um testemunho do sucesso da caracterização:

Um homem
Que de um magro Rocinante
Ao virar dessa esquina
Se apeou, e em rosto e figura,
Parece aquele Dom Quixote,
De quem Miguel de Cervantes
Escreveu as aventuras

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