Ilustradores de Quixote na Biblioteca Nacional Site da Biblioteca Nacional Site da Biblioteca Nacional Digital
 
Apresentação Visite a exposição História de uma tradição O Quixote em Portugal e na Biblioteca Nacional Outros Sítios
Biografia de Miguel Cervantes D. Quixote Ilustradores de Dom Quixote
O Quixote em Portugal e na Biblioteca Nacional

SILVA, António José da, 1705-1739
Vida do grande D. Quixote de la Mancha, e do gordo Sancho Pança
In : Theatro comico portuguez ou collecção das operas portuguezas [...]. – Lisboa : Na Of. Patriarcal de Franc. Luiz Ameno, 1759. – T. 1, 1-120
BN L. 85751 P.

«Se Lisboa foi a primeira terra do mundo que reimprimiu D. Quixote, seria o Porto a que o reimprimiria em mais esplêndida e mais honrosa edição», assinalou Pinheiro Chagas, em 1876, aludindo a circunstâncias que irei esclarecendo mas que, desde já, evocam dois momentos fundamentais na história da recepção da obra de Cervantes em Portugal. De facto, desde que, naquele mesmo ano de 1605, se fizeram em Lisboa três edições do livro, duas delas pouco depois da primeira publicação em Madrid, até aos nossos dias não deixaram o Dom Quixote, as suas personagens, as conversas e episódios que protagonizaram ou que nos contam, de impressionar as leitoras e os leitores portugueses. Ao longo destes 400 anos, incorporaram-no ao seu imaginário, escreveram outros livros em diálogo com ele, invocaram-no em múltiplas situações, mesmo sem o terem lido, ilustraram-no, traduziram-no, teatralizaram-no, recorreram a ele, além do mais, em situações de crise da história portuguesa.

Ainda no século XVII escreveram-se panfletos políticos, poemas e peças de teatro. No século XVIII, dessas variadas reescritas ficaram famosas: uma «ópera jocosa» do «judeu» António José da Silva, de quem este ano se comemora, também, o terceiro centenário do nascimento, A Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança, que, em 1733, se representou e cantou no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa; e um poema satírico de Nicolau Tolentino, «em pró do marquês de Pombal».

No século XIX, os românticos portugueses adoptaram a leitura idealista do Quixote, criada por filósofos e literatos alemães. E os maiores escritores do século, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, invocaram-no repetidamente, como modelo de cavaleiro andante, de homem enamorado, de louco sublime ou, no caso de Eça de Queirós, como o criador do riso regenerador. Latino Coelho publicou, primeiro, em «entregas» n’ O Panorama e, logo, em volume, uma biografia romântica de Cervantes e os poetas finisseculares, como Gonçalves Crespo e Gomes Leal, exaltaram Dom Quixote como um «Campeão do Bem». Por fim, Pinheiro Chagas sebastianiza Dom Quixote e quixotiza Dom Sebastião.

No século XX, começou Portugal, tal como aconteceu por toda a Europa, por comemorar, com entusiasmo e empenho, a sua publicação. Guerra Junqueiro representou Portugal nas cerimónias oficiais espanholas e Maria Amália Vaz de Carvalho e Teófilo Braga, entre outros, escreveram sobre a obra e o autor. Desde então, e durante os últimos cem anos, através de escritores como, entre outros, Teixeira de Pascoaes, Miguel Torga, José Gomes Ferreira, Carlos Selvagem, José Cardoso Pires, Aquilino Ribeiro, José Saramago, Natália Correia, Jorge de Sena, Eduardo Lourenço e A. Lobo Antunes, a literatura portuguesa invocou Dom Quixote, Sancho, Dulcineia, os moinhos e os gigantes, Rocinante e o «cavalo de pau», o próprio Cervantes:

para melhor entender o ser «saudoso», melancólico ou sonhador dos portugueses, para clamar contra a guerra ou as injustiças sociais, para entender a busca do amor absoluto, enfim, para responder à necessidade vital de utopia. E, de novo, pela via biográfica ou ensaística, de Tomás Ribeiro Colaço a Álvaro Salema, de Roberto Nobre a Alberto Xavier, se aventaram teses e interpretações e se tentou conhecer ou dar a conhecer melhor o escritor e o livro. Ou, nos casos que é necessário destacar de Fidelino de Figueiredo e de Jacinto do Prado Coelho, respectivamente, se aportaram dados para uma investigação rigorosa da sua presença na literatura portuguesa, nos séculos XVII e XVIII ou se sintetizou «o Quixote e o quixotismo na literatura portuguesa».

Em diversas ocasiões e em publicações variadas, de forma mais ou menos minuciosa, tenho dado conta da recepção do Quixote em Portugal (ABREU 1994; 2005). Aqui, acabo de sintetizar, brevissimamente, aquela recepção. No que se segue, assinalarei apenas uns poucos dos elementos que a conformam, seleccionados também tendo em consideração documentos particularmente acessíveis (e apetecíveis) no espólio que a BN oferece aos seus leitores.

No Sítio do Picapau Amarelo, o brasileiro Monteiro Lobato conta às crianças que a boneca Emília, desejosa de descobrir novidades, «livros de figura», mexendo nos que estavam na sala de Dona Benta, conseguiu – com muita manha, algum trabalho, um cabo de vassoura a fazer de alavanca e, sobretudo, a ajuda de uma escada e do visconde, outra personagem do Sítio – fazer cair da prateleira, onde estavam os maiores, um «D. Quixote de La Mancha, em dois volumes enormíssimos e pesadíssimos.»

Tanto fez, que o livrão se foi deslocando para a beirada da estante, agora dois dedos, agora mais dois dedos, até que...
– Brolorotachabum! Despencou lá de cima, arrastando em sua queda a escada, a Emília e o cabo da vassora, tudo bem em cima do pobre visconde
.

«Ansiosa por ver as figuras do D. Quixote», a Emília pouco lhe importou o estado em que ficou o pobre visconde e empurrou da sala a criada negra que, entretanto, tinha vindo ver que «terramoto» tinha sido aquele. Abriu o livro, leu, na primeira página o título e o nome do seu autor, riscou o segundo a de Saavedra e:

Feita a correcção, começou a folhear o livro. Que beleza! Estava cheio de enormes gravuras dum tal Gustave Doré, sujeito que sabia desenhar muito bem. A primeira gravura representava um homem magro e alto, sentado numa cadeira que mais parecia trono, com um livro na mão e a espada erguida na outra. Em redor, pelo chão e pelo ar havia de tudo: dragões, cavaleiros, damas, coringas e até ratinhos... […] e Dona Benta, na noite desse mesmo dia, começou a ler para os meninos a história do engenhoso fidalgo da Mancha. Como fosse livro grande demais, um verdadeiro trambolho, aí do peso de uma arroba, Pedrinho teve de fazer uma armação de tábuas que servisse de suporte. Diante daquela imensidade sentou-se Dona Benta, com a criançada em redor.

Ao perceber que Emília riscara o segundo a de Saavedra porque, diz ela, «se um a diz tudo para quê dois», responde-lhe Dona Benta:

– mas você devia respeitar esta edição, que é rara e preciosa. Tenha lá as ideias que quiser, mas acate a propriedade alheia. Esta edição foi feita em Portugal há muitos anos. Nela aparece a obra de Cervantes traduzida pelo famoso visconde de Castilho e pelo visconde de Azevedo.

Continuando a sua explicação às crianças do Sítio, explica ainda Dona Benta que «o visconde de Castilho foi dos maiores escritores da língua portuguesa. É considerado um dos melhores clássicos, isto é, um dos que escreveram em estilo mais perfeito.»

Parte I Parte II Próxima página
 
© 2005 Biblioteca Nacional, todos os direitos reservados. | Créditos