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Biografia de Miguel Cervantes D. Quixote Ilustradores de Dom Quixote
O Quixote em Portugal e na Biblioteca Nacional

CUNHA, Xavier da, 1840-1920
A exposição cervantina da Bibliotheca Nacional de Lisboa [...] : breve noticia [...] / Xavier da Cunha. – Lisboa : Imp. Nacional, 1908
Seguida do respectivo catálogo / por Eduardo de Castro e Almeida.
BN B. 6999 V.

«Esta edição feita em Portugal há muitos anos», «rara e preciosa», constitui, de facto, um dos momentos mais importantes da recepção do Quixote entre nós e é bem provável que, deixando assim constância dela, Monteiro Lobato tenha querido fazer uma homenagem tanto a Castilho como à importância dessa edição que oferecia a primeira grande tradução do livro para português, depois da que tinha sido feita anonimamente nos fins do século XVIII e reimpressa ainda a meados do século XIX. Na secção de Reservados da BN, podem os leitores e leitoras desfrutar desta edição, monumental, em dois volumes, ilustrada com os desenhos de Gustave Doré, gravados por H. Pisan (Paris: Hachette, 1863), impressa agora no Porto pela Imprensa da Companhia Literária, em 1876-78. «Se Lisboa foi a primeira terra do mundo que reimprimiu D. Quixote, seria o Porto a que o reimprimiria em mais esplêndida e mais honrosa edição», recorde-se. No Catálogo d’ «A Exposição Cervantina», feita pela Biblioteca Nacional para as comemorações do tricentenário da publicação do Quixote, sendo seu director Xavier da Cunha, aparece registada com o número 35, no capítulo das «traduções portuguesas», com o seguinte comentário: «magnífica edição de luxo, com prefácio de Manuel Pinheiro Chagas, que foi também o tradutor de parte do vol. II».

Este Prefácio de M. Pinheiro Chagas constitui, na verdade, o mais amplo comentário que a obra desperta entre os escritores portugueses no século XIX, ainda que não o único. Nele mostra o seu autor um conhecimento actualizado do estado da crítica cervantista contemporânea assim como das interpretações de que o livro tinha sido objecto ao longo dos tempos e nas diferentes literaturas ocidentais. Por outro lado, Chagas Imagens e leituras do Quixote 35 analisa a matéria do livro numa perspectiva da história política, cultural e social ibérica no seu conjunto; e, mergulhado ainda numa visão romântica do mundo, faz notar «a singular semelhança que houve entre o destino de Cervantes e o destino de Camões», já assinalada por um estudioso espanhol, e enfaticamente aproximando a personagem de Dom Quixote da figura do rei português Dom Sebastião, filia-as, entre outros, num comum «espírito cavalheiresco»: «esse espírito cavalheiresco que foi, que há-de ser sempre a glória e ao mesmo tempo a perdição dos dois povos peninsulares».

Omitindo, todavia, este texto introdutório, nas mais diversas e variadas edições, a tradução dos viscondes de Castilho e de Azevedo vai ser a mais reproduzida até aos nossos dias, apesar de, entretanto se terem editado em Portugal em torno de uma dezena de traduções – sendo as mais recentes, do presente ano de 2005, da autoria de Miguel Serras Pereira e de José Bento, e realizadas no contexto das presentes comemorações – além de versões e adaptações de todo o tipo. Pode, de facto, ver-se, na BN, aquela «magnífica edição de luxo» e «monumental». Mas, igualmente, aqui se pode ler a que, em contraste com ela, será, segundo creio, um dos mais pequeninos D. Quixote de la Mancha, que, todavia, apesar do tamanho, não deixa de dar na capa o nome completo do autor: trata-se de uma adaptação de outra adaptação, a de B. H. Gausseron, publicada agora na «Biblioteca Ideal», da Casa Garrett, Editora, de Lisboa, impressa em 1921, com um «intróito» de Alberto Pimentel.

No domínio das versões, com ilustrações de artistas portugueses, deve salientar-se, pelo seu autor e pela divulgação que tem alcançado, e equivocadamente lida como «tradução», a que realizou o escritor Aquilino Ribeiro, também autor de um livro de ensaios sobre Miguel de Cervantes e o Quixote – No Cavalo de Pau com Sancho Pança – e de uma tradução das Novelas Exemplares. Refiro-me a uma «tiragem especial publicada pelo Fólio, em 1954», continuada no ano seguinte, em fascículos, com magníficas ilustrações de Lima de Freitas. Aí indicada como «tradução», será editada em volume, em 1959, pela Bertrand, como «versão». Vale a pena recordar que o Dom Quixote, cujos 400 anos da publicação agora se comemora, é obra de um autor, Miguel de Cervantes, que, além deste, nos deixou outros livros, também importantes. Cerca de vinte anos antes tinha ele publicado a primeira parte da Galateia, novela no género pastoril que era, então, um dos de maior prestígio. As dificuldades da vida e o pouco apoio das instituições terão feito que nada mais tivesse publicado até dar à luz o Dom Quixote. Assim, é o êxito obtido por este o que lhe vai permitir publicar nos anos seguintes obras que, entretanto, tinha ido escrevendo, como: as Novelas Exemplares (em 1613); as Ocho comedias, y ocho entremeses nuevos, nunca representados (em 1615), além de «peças soltas», publicadas posteriormente, como El trato de Argel e La Numancia; o poema Viaje del Parnaso (1614). Finalmente, a 19 de Abril de 1616, poucos dias antes de morrer, e sabendo que está já «con el pie en el estribo», data e assina o Prólogo do livro que será publicado postumamente no ano seguinte e que, segundo a crítica mais recente, constitui a sua obra de maior maturidade: los Trabajos de Persiles y Sigismunda. Una Historia Setentrional. É, sem dúvida aquela onde fez o que queria fazer, respondendo à vontade de experimentar uma épica nova, em prosa (recorde-se que, menos de meio século antes, Luís de Camões tinha feito publicar Os Lusíadas, a obra máxima no género da épica renascentista.)

Não devem, pois, os leitores e as leitoras da Biblioteca Nacional deixar de lado as restantes obras de Miguel de Cervantes também porque, precisamente, em relação a esta última obra aí encontram, também na secção dos Reservados, uma das jóias que esta nos proporciona: duas traduções manuscritas, provavelmente da primeira e segunda metades do século XVIII, respectivamente, que, segundo se crê, nunca foram impressas (ROMERO 1977). Impressa mesmo e, sem dúvida, da sua autoria, foi a tradução de fragmentos do Persiles que Camilo Castelo Branco introduziu no texto intitulado «Manuel de Sousa Coutinho e Miguel de Cervantes», que publicou, em primeira mão, na Gazeta Literária do Porto, em 1867, e que, hoje, podemos facilmente ler no seu livro Mosaico e Silva de Curiosidades Históricas, Literárias e Biográficas, do ano seguinte (ABREU 1994: 241-253).

Aí, vemos um Camilo agastado e crítico com Cervantes. Mas não caiamos em generalizações enganadoras. Do princípio ao fim da sua carreira de escritor, entre outros em A queda dum anjo e no seu projecto de «romances facetos», invocou-o explicitamente e imitou-lhe os comportamentos narrativos, as opções técnicas, os modelos, as personagens e os episódios. E, em texto memorialístico de No Bom Jesus do Monte, com ele se irmanou, com ele, com o seu Dom Quixote, com o «riso» de ambos: «Eu te abençoo, infeliz que me dás alma e paciência que me edifica!». «Escrevias, não para o teu século, mas para o meu, que ainda agora dei bem no fio do teu intento», diz Camilo no mesmo texto. Para o nosso século, para hoje mesmo, dizemos nós parafraseando-o, em cada dia que passa, lendo e meditando no fio do seu intento, escrevia também Cervantes ao escrever o seu Quixote.

Maria Fernanda de Abreu

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