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"aquela arte de concisão que caracteriza o verdadeiro escritor" 1871-1880






1871
A notícia da declaração da queda do II Império, da fuga de Napoleão III e da imperatriz Eugénia para o exílio, das primeiras vitórias republicanas em França surpreendem a jovem geração literária portuguesa. Sob o impacto revolucionário da Comuna de Paris, o alargado grupo do Cenáculo - beneficiando do sentido de organização dos jovens Oliveira Martins e José Fontana - programa as célebres Conferências Democráticas, realizadas entre Maio e Junho no Casino Lisbonense, ao Largo da Abegoaria (Largo Rafael Bordalo Pinheiro). Alguns jovens da geração aderem à Internacional (Antero, Eça, Batalha) no período de oscilações ideológicas que antecede o curto predomínio de Karl Marx até à extinção da organização operária (1876).
O Espírito das Conferências constituiu a intervenção de abertura, de Antero de Quental, que profere em seguida a conferência sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. Eça intervém (12 Jun.) com a leitura de um texto, literalmente desconhecido, então anunciado como A Moderna Literatura ou ainda A Literatura Nova. O Realismo como Expressão de Arte: às ideias Sobre o Princípio da Arte, de Proudhon, assimila, grosso modo, as teorias do meio defendidas por Hipólito Taine, base teórica de um realismo que o conferencista explicitamente opunha ao «realismo de paisagem» de Júlio Dinis, aliás falecido neste ano.
Porém, após conferência de Adolfo Coelho sobre o estado do ensino - antes que Salomão Sáragga proferisse uma interpretação crítica sobre a religião de Cristo e Batalha Reis uma exposição sobre o socialismo -, o governo do marquês d'Ávila publica uma portaria que proíbe as Conferências e encerra o Casino, a despeito de um protesto dos conferencistas, também subscrito por Eça e depois apoiado por algumas dezenas de personalidades.
Exonerado do cargo de administrador do concelho de Leiria (6 Jun.), o jovem Eça protesta pela ausência de nomeação consular, para que ganhara concurso de acesso há já um ano, aproveitando novo ministério (13 Set.) - aliás, o mais duradouro governo da 2ª Regeneração, que durou quase toda a década, chefiado por Fontes Pereira de Melo e ocupada a pasta dos Negócios Estrangeiros pelo escritor Andrade Corvo.

1872
Finalmente, com a sua nomeação (16 Mar.) para o lugar de cônsul de Portugal nas Antilhas espanholas, termina a colaboração em As Farpas (nº 15, Set.-Out.), partindo para Cádis onde aguarda durante três meses a partida para Cuba (9 Nov.), última colónia europeia na América do Sul. Chega a Havana apenas no final do ano (20 Dez.), e aí começa a desempenhar a missão de defesa dos coolies, emigrados de origem macaense empregues nas grandes plantações e a propósito dos quais o jovem cônsul dizia em carta diplomática: «a emigração chinesa é a dissimulação traidora da escravatura».

1873
O desempenho em Cuba pode explicar a missão de que o encarrega o embaixador português nos Estados Unidos, instruir relatórios sobre as condições dos colonos portugueses: inicia (30 Maio) um périplo de seis meses pela América do Norte, que terá representado, ante o novo espectáculo de civilização, uma espécie de antevisão do futuro e foi decisiva para uma inversão do progressismo ideológico juvenil: «tudo isto se tem combinado para acalmar, sossegar o meu temperamento de conspirador: vejo capitalistas sem empalidecer - e cheguei a poder examinar uma serra ou um martelo sem sentir necessidade de exalar um hino!» Sucessivamente, passa por Nova Iorque, Filadélfia e Chicago, até ao centro de Nova Orleans, admira a paisagem dos grandes lagos, Niagara e, mais a norte, fica arrebatado pela beleza de Montreal.
De retorno ao posto de cônsul em Cuba (15 Nov.), esboça o romance Uma conspiração na Havana - que ainda projectou para novela, sem concluir -, com sugestão nos episódios da primeira guerra de libertação colonial, quando a Espanha vive sob a abdicação do rei Amadeu, a proclamação da efémera I República e o reacender de uma guerra civil que só termina no ano seguinte com a restauração da monarquia a favor de Afonso XII.

1874
Logo no início do ano, faz inserir na série antológica Brinde aos senhores assinantes do Diário de Notícias em 1873 o conto «Singularidades duma Rapariga Loira» (reed. 1881, 1900 bis).
Autorizado pelo «Gobierno Superior» de Cuba a ausentar-se da ilha (20 Mar.), termina a comissão de serviço e regressa a Lisboa (Abr.-Maio). Desenvolve O Crime do Padre Amaro, que dá a conhecer a Antero e Batalha, então fundadores da lisboeta Revista Ocidental, que se pretendia órgão literário da geração. Após alguns meses de espera, é transferido (29 Nov.) como diplomata para Newcastle-on-Tyne, cidade hulhífera ao norte de Inglaterra cuja concentração operária e predomínio socialista afigura-se-lhe deprimente: «Estou no foco. É desagradável o foco».

1875
A partir de Fevereiro, entre acidentes de provas e revisões de se que manifesta contrariado, vê publicado O Crime do Padre Amaro, em capítulos (1ª versão, até 15 Abr.), na Revista Ocidental, acabando por iniciar imediata revisão «das folhas odiosas» do romance.
Pela mesma altura, redige extensa correspondência diplomática sobre a situação social inglesa, nomeadamente sobre as greves mineiras de Northumberland, condado em que reside, delas fazendo eco em futuras crónicas jornalísticas.

1876
Sem descurar as críticas de Batalha Reis e Antero ao primeiro romance, publica (Jul.), em livro, uma segunda versão de O Crime do Padre Amaro com tiragem de 800 exemplares. De férias em Lisboa, começa (Set.) a escrever O Primo Basílio, com o título primitivo de O primo João de Brito, romance de tese - «talvez um pouco violento e cru, mas não é para fazer dele leitura de serão nos colégios que o escrevi» - com que o autor mais se aproxima do naturalismo.

1877
Com a única menção de «Correspondência particular», dá início (Abr.) às chamadas «Crónicas de Londres» no jornal portuense A Actualidade, ao preço de 7 libras mensais (até Maio 1878), em que faz uma revista da sociedade inglesa e dos grandes acontecimentos da época. Convivendo mais de perto com os meios de Londres, assiste ao arranque da expansão colonial britânica que tem início nas grandes explorações e na entronização da rainha Victoria como imperatriz da Índia, sob o consulado do primeiro-ministro Disraeli: o envolvimento britânico sucede-se nos Balcãs e Ásia Menor, desde a sublevação Herzegovina à guerra do Oriente (conflito russo-turco que atinge todos os países balcânicos até ao ano seguinte); no coração asiático, da influência sobre o Japão e China à guerra do Afeganistão; bem como, no continente africano, do Canal do Suez, passando pelo domínio da rota do ouro, marfim e escravos na costa ocidental, aos conflitos no extremo sul de que foi expoente a anexação do Transvaal. Para além da importância dada ainda nestas crónicas ao peso da unificação germano-prussiana no contexto europeu, e aos conflitos franceses entre monárquicos e republicanos que teve momento alto no golpe do marechal Mac-Mahon (Maio), Eça dá particular atenção às explosões grevistas, no velho como no novo continente, sobretudo a greve dos ferroviários de Ohio, nos Estados Unidos, quando em Portugal o caminho de ferro acabava de chegar ao Porto com a construção da ponte de D. Maria II.
Comunica a Ernesto Chardron, seu editor, o projecto das Cenas da Vida Real, também designadas Cenas da Vida Portuguesa e Cenas Portuguesas, concepção de «uma espécie de Galeria de Portugal no século XIX» de que haveria de desistir: alguns títulos não passaram de intenção (O prédio n.º 16; A linda Augusta; O bacharel Sarmento; Soror Margarida; O milagre do Vale de Reriz; O bom Salomão; O Rabecaz; O Gorjão, primeira dama; A assembleia da Foz; O conspirador Matias), outros apenas em esboço (História de um grande homem resultará em O Conde de Abranhos? ou O caso atroz de Genoveva em A Tragédia da Rua das Flores?), outros, ainda, embora grandemente trabalhados, só foram publicados postumamente, como A Capital! que então começa a escrever. Apenas Os Maias, romance cuja extensão é certamente superior ao plano inicial, e A ilustre família Estarreja, que talvez tenha resultado em A Ilustre Casa de Ramires, viriam a conhecer publicação em vida do autor.
Embora com posterior e tardia referência de Eça, Alexandre Herculano morre na sua Quinta de Vale de Lobos.

1878
É publicado O Primo Basílio, numa edição de 3.000 exemplares que esgota rapidamente, tendo no mesmo ano saído a público uma segunda edição, ilustrada com fotografia do autor. O romance gera críticas em Portugal - inclusive de Ramalho Ortigão - como no Brasil - pela caricatura de Bordalo Pinheiro ou pela pena de Machado de Assis -, devido às suas características cruamente realistas, conquanto conheça grande popularidade. Dirige a Joaquim de Araújo, para publicação no jornal portuense «A Renascença» de que aquele era redactor, uma biografia de Ramalho Ortigão.
Por decreto de 30 de Julho, é transferido para o consulado de Bristol.
Mantém o projecto das «Cenas da Vida Portuguesa» e faz várias tentativas para a sua realização, redigindo, entre outros trechos mais curtos mas que também deixou inéditos, A Tragédia da Rua das Flores. Planeia, e abandona, a criação de A Batalha do Caia - de que se conhece apenas um esboço de plano e a narrativa intitulada A Catástrofe - pretendendo, como diz em carta a Ramalho, causar «um escândalo no país».

1879
Para prefácio da 3ª versão de O Crime do Padre Amaro escreve «Idealismo e Realismo», texto que, na sua quase totalidade, ficou inédito e no qual se defende das acusações de plágio a Madame Bovary de Flaubert em O Primo Basílio e a La faute de l'Abbé Mouret de Zola em O Crime do Padre Amaro.
Insiste na necessidade de fazer correspondências para jornais «por higiene intelectual», preparando colaboração em periódicos brasileiros.
Inicia o manuscrito de O Conde de Abranhos, que abandonou depois de apresentado a Chardron, mantendo em rota de provas de paginação o projecto de A Capital!.

1880
Passa os primeiros seis meses em Portugal, a mais larga estada no país desde que iniciou a carreira diplomática, altura em que têm lugar uma homenagem aos exploradores africanos Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens na nova Sociedade de Geografia (Mar.) e os festejos do centenário de Camões (Jun.). O periódico lisboeta Diário de Portugal anuncia (Mar. e Abr.) que nas suas páginas vai ser publicado o romance Os Maias.
Reúne-se no Montijo (Maio) com um grupo de «realistas» - Teixeira de Queirós, Mariano de Carvalho, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro, Jaime de Séguier, Luís Bastos, Ernesto Biester, Cristóvão Aires, Eugénio de Mascarenhas e Zenóglio - num jantar documentado por Rafael Bordalo Pinheiro, que também lhe dedica uma caricatura no Álbum das Glórias.
A publicação da terceira versão de O Crime do Padre Amaro (2ª edição em livro), merece a Camilo Castelo Branco - que então intentara (superficial ou crítica?) incursão «realista» em Eusébio Macário e neste ano publica A Corja - o comentário de «obra prima que há-de resistir como um bronze a todas as evoluções destruidoras das escolas e da moda».

1845 Infância e Adolescência 1845-1861 Formação 1861-1866 Aprendizagem da Escrita 1866-1871 Escrita do Real 1871-1880 Outros Mundos Possíveis 1880-1888 Eterno Retorno 1888-1900
 
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