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JORNADA DE ESTUDOS GARRETIANOS

(Oxford, 26 de Novembro de 1999)

Catão em Plymouth

Os Velhos, os Meninos, toda a gente
Tractarão com affecto os Portugueses.
Estes tambem com elles se portárão
Com tanto brio, e garbo, que parece
Formarem todos uma só familia.

(Descripsam das trez cidades unidas, anónimo)

Introdução

A comunicação que tenho a honra de apresentar hoje aqui, nestas Jornadas Garrettianas, pretende-se uma abordagem monográfica ao episódio da representação cénica do Catão de Almeida Garrett na cidade de Plymouth em 1828. Não se trata de analisar aqui a tragédia em si, do ponto de vista literário — tarefa que deixo aos especialistas — mas sim, tão somente, a sua encenação em Plymouth por um grupo de refugiados portugueses, procurando, tanto quanto possível, recriar o ambiente vivido nas três — ou quatro — noites em que a peça subiu à cena.

Espero, também, poder contribuir, ainda que modestamente, para um melhor conhecimento da problemática da emigração política portuguesa para a Grã-Bretanha no período dos conflitos liberais que opuseram o Portugal Velho e Portugal Novo, tema ainda por estudar em toda a extensão e profundidade, não desfazendo a importância das abordagens de Vitorino Nemésio, em Exilados e Mocidade de Herculano.

O texto que passarei a ler, não obstante ter sido já publicado em as Actas do Colóquio "De Garrett ao neo-garrettismo", sob o título "Catão em Plymouth: controvérsias acerca da representação da tragédia em Inglaterra (1828)", constitui versão aumentada e melhorada, que a fiz eu já passar pelo crivo de nova e mais cuidada investigação, sobretudo com o recurso à leitura de periódicos da época — fonte obrigatória de pesquisa — e à muita correspondência trocada com diversas instituições, bibliotecas e arquivos da Grã-Bretanha, entre os quais importa destacar: Plymouth Library and Information Services, Plymouth Theatre Royal Ltd., Saltram House (património de The National Trust for Places of Historic Interest or Natural Beauty — Devon Regional Office), Birmingham Public Library e British Library (Newspaper Library).

A primeira versão foi composta em tempo-record — em menos de uma semana —, empresa que apenas me foi possível porque me limitei a compilar e a materializar sob a forma de um texto, mais ou menos homogéneo e verosímil, uma série de informações que vinha recolhendo nos últimos meses, em colaboração com o Dr. Luís Augusto Costa Dias — porventura o maior especialista da obra política de Garrett na actualidade —, destinada a melhorar a página alusiva ao Bicentenário do Nascimento de Almeida Garrett no site da Biblioteca Nacional na Internet.

*

* *

Começarei por introduzir o tema que me trouxe aqui — a representação do Catão em Plymouth durante a emigração política de 1828 —, com um esboço de enquadramento ou cenário sócio-político em que toda a acção se desenrolou, procurando dar uma ideia da extensão do drama vivido pelos exilados políticos portugueses nos portos do sul da Inglaterra neste período.

O primeiro surto migratório de exilados políticos portugueses para a Inglaterra com algum significado numérico, vai dar-se somente a partir de 1823, após o advento da Vilafrancada, tendo sido atirados para o desterro, sobretudo para Londres, uma série de indivíduos de tendência jacobinizante, alguns com ligações à maçonaria, entre os quais importa destacar Duarte Lessa, Ferreira Borges, Silva Carvalho e o próprio Almeida Garrett.

Mas o grande fluxo de emigrados políticos portugueses para as ilhas britânicas — esse sim, assumindo proporções verdadeiramente bíblicas —, vai dar-se somente em meados de 1828, após o malogro da Belfastada e pouco depois do "assalto ao trono" pelos miguelistas. Agora, porém, não são apenas os vintistas a requerer protecção do estandarte britânico, mas sim todos aqueles que comungam do ideário liberal, quer se trate de cartistas moderados, quer de aguerridos constitucionalistas. Chegam ao sul da Inglaterra, nomeadamente aos portos de Falmouth, Portsmouth e Plymouth, vindos da Corunha e do Ferrol, e somam mais de dois milhares de refugiados de todas as classes sociais, concordando os registos memoralísticos de Joaquim da Silva Maia e Simão da Luz Soriano, que o número total de proscritos era de 2.386.

Os emigrados foram, na sua maioria, amontoados em barracões na cidade de Plymouth, oficialmente designados por "Depósito Geral", e aí permaneceram, meses a fio, e em condições verdadeiramente sub-humanas.

Plymouth — etimologicamente "Boca do Plym", rio que forma, juntamente com o Tamar, o enorme estuário em cujas margens se ergue a cidade e um dos maiores portos marítimos da Inglaterra — integrava, no início do século XIX, o complexo urbano conhecido por "The Three Towns", juntamente com Devon e Stonehouse. Situado no Condado de Devonshire, o conjunto das "três cidades" recenseava 61.212 habitantes em 1821, 76.001 em 1831, pelo que, acrescendo o número de exilados referidos por Maia e Soriano, o número total de residentes em 1828, deveria rondar os 76.000.

Os barracões, que até aí tinham servido para o armazenamento de madeiras destinadas à construção, careciam de quase tudo, como nos informa Joaquim da Silva Maia:

…inteiramente desabrigados, sem janellas de vidraça, sem qualidade alguma de bancos, cadeiras, ou camas; deitaram-lhe avulso huma pouca de palha, que renovavão de 15 em 15 dias, e que se tornava um excellente esterco, porque sendo o local dos armazens pantanoso e cheio de lama, os emigrados que não tinhão aonde limpar os sapatos, com elles enlamaedos andavão por cima das palhas…

Somente aos privilegiados foi dada a possibilidade de recorrerem aos "lodgings" e aos hotéis, ou mesmo a viverem em Londres ou em Paris — entre os quais Almeida Garrett — "…sustentados á cavalheira, e muitos delles melhor do que seriam nas suas proprias casas em Portugal".

Garrett e a mulher, a bonita Luísa Midosi, partiram para o exílio incerto na Inglaterra em Maio de 1828, também via Ferrol, e desembarcaram em Falmouth a 19 de Junho desse ano, partindo, logo se seguida, para Londres, onde, durante os primeiros meses, a par da tragédia — essa sim bem real! — vivida pelos emigrados de Plymouth, residiram confortavelmente no número 13 de Oxendon St. Haymarket, graças à assistência do Visconde de Itabaiana. Garrett aproveita o relativo desafogo financeiro para fazer repetidas visitas à Biblioteca do British Museum e, lembra Lia Raitt, às "…excellent Portuguese libraries of the well-known bibliophiles Gooden and Richard Heber".

São deste período alguns dos seus romances populares mais famosos, como Adozinda e Bernal-Francez, ambos inspirados nas minstrelsies de Walter Scott, e que lhe valem os mais ardentes elogios por parte de alguns lusófilos de renome, mormente John Adamson (1787-1855), o Reverendo William Kinsey (1788-1851) e o poeta Laureate Robert Southey (1774-1843). E é, justamente, no final desse ano de 1828, que o seu Catão será levado à cena na cidade portuária de Plymouth; passeava-se Garrett pelas avenidas da capital britânica, no fashionável "…West-End de Londres…", exibindo invejável guarda roupa, cuja venda, em finais de 1831, lhe permitiu comprar passagem para França e integrar o exército libertador de D. Pedro.

Das datas da representação do Catão

A peça, dada à estampa pela Impressão Liberal em 1822, foi representada pela "…primeira vez, em Lisboa, por uma sociedade de curiosos…", em 29 de Setembro de 1821, no Teatro do Bairro Alto; no ano seguinte, subia de novo à cena, desta feita em Leiria, também por um grupo amador e, em 1826, era representada na cidade de Santarém.

"Também exilada na geral proscrição de 1828, veio aparecer em Plimute [sic.]…", informa o próprio Almeida Garrett, tendo sido representada, segundo Carlos Estorninho, baseado em uma enigmática obra — ou artigo — de Peter Davey intitulada The Chronicles of the county theatres of the South of England , "…em três sucessivos espectáculos…", (a saber: em 24 de Outubro, 1 e 23 de Dezembro de 1828), não obstante as Memorias de Joaquim da Silva Maia, ou as Revelações de Simão da Luz Soriano, fontes coevas, afirmarem que a tragédia subiu à cena quatro vezes.

Os desacertos continuaram porém: em 1883, na sua Historia da Guerra Civil, Soriano assevera que se realizaram "…tres noite[s] de recita", desdizendo o que havia afirmado vinte e três anos antes nas suas Revelações. Não deixa de ser desconcertante esta contradição em duas obras de um mesmo autor, sobretudo sabendo que Soriano, à semelhança de Joaquim da Silva Maia, testemunhou o acontecimento. Poderá pensar-se ter havido uma gralha por parte de Maia, visto que as suas Memórias antecederam em quase vinte anos as Revelações de Luz Soriano, tendo este último reincidido no erro alheio. Parece-me, contudo, mais provável que tenham ocorrido quatro representações do Catão, e não três, como tem sido defendido pela maioria dos autores.

Na edição das suas Poesias Diversas, já Soriano especificara que a tragédia Catão foi "…recitada no Real Theatro de Plymouth, em a noite do dia 23 de Dezembro de 1828…", rematando mais tarde, na Historia da Guerra Civil, que essa fora a terceira e última récita do ciclo Catão, "…tendo a primeira tido logar na noite de 24 de outubro e a segunda na noite de 1 de dezembro". Esta última data parece fidedigna, a avaliar pela seguinte notícia publicada no periódico O Portuguez Emigrado:

We are authorized to state, that neither general Stubbs, the Commander of the Depos of the Portuguese Emigrants, nor any of the Portuguese Authorities, communicated to the audience to the Theatre on the 1st Inst. [December] the death of Don Miguel, as was inadvertently stated by the Journal of this town.

Finalmente, segundo "Uma recita em Plymouth", artigo publicado em 1874 em o Almanach Insulano, a peça teria subido à cena em Janeiro de 1829, "…quando os emigrados portugueses residentes em Plymouth se preparavam a embarcar para esta ilha Terceira…" E Teófilo Braga, talvez com base nesta informação, referiu em as Modernas Ideias que "…os emigrados portuguezes, em 1829, representavam em Plymouth a sua tragedia Catão…", o que levou Vitorino Nemésio, em os Exilados, a classificar a afirmação de "inexacta".

Porém, já nas Memorias Biographicas, Gomes de Amorim acusara o autor dos artigos "Escavações historicas" e "Annotações", que faziam referência à representação da tragédia em Inglaterra, de ter cometido sérias "calinadas":

Fallando da representação do Catão, em Plymouth, affirmou ter sido em janeiro de 1829. Garrett, que devia saber d’isso, escreveu 1828. E Simão José da Luz Soriano […] conta que se deram tres récitas, a primeira a 24 de outubro, a segunda em 1, e a terceira em 23 de dezembro de 1828. É desta que falla o critico, ignorando que tivesse havido outras duas […]. Foi, pois, em outubro e dezembro de 1828, e não em janeiro de 1829, como erradamente assevera.

Ora, dado que estes artigos, segundo Amorim, foram publicados na imprensa lisboeta no mesmo ano em que se editou o primeiro tomo das Memorias Biographicas, (isto é: em 1881), e dado, ainda, que o artigo "Uma recita em Plymouth" os antecedeu em sete anos, dá ideia que o autor de "Escavações historicas" e "Annotações" foi documentar-se no artigo do Almanach Insulano, transmitindo-se, assim, a gafe de autor para autor. A pouca credibilidade que nos merece qualquer dos três artigos, poderá, ainda, ser observada em uma outra instância, à qual me irei referir adiante.

Parece-me, pois, mais correcto — tendo em linha de conta os elementos disponíveis, e que são escassos (sublinhe-se que se trata aqui de uma representação feita por emigrados e para emigrados, por conseguinte pouco divulgada) —, datar as várias representações do Catão em Plymouth, em 24 de Outubro, 1, 21 e 23 de Dezembro de 1828, o que faz um total de quatro espectáculos. Refira-se, no entanto, que estas datas terão de ser objecto de verificação mais cuidada, sendo para isso necessário o empreendimento de uma investigação sistemática em todos os jornais locais britânicos da época, sem o qual dificilmente superaremos a esfera da pura especulação.

 

Do Theatre Royal

A peça subiu à cena no Theatre Royal de Plymouth, propriedade de John Parker (1772-1840), segundo Baron Boringdon e primeiro Earl of Morley, popularmente conhecido por "Borino", cuja família, originária de Warwickshire, viria a estabelecer-se no Condado de Devon no século XVII, passando a sua residência oficial para a Saltram House, "…the largest house in Devonshire", em Plympton, a curta distância de Plymouth, onde, recentemente, foi rodada a película Sense and Sensibility.

Curiosamente, quer este romance, quer Pride and Prejudice, parecem ter sido inspirados no ambiente vivido na Saltram House no primeiro quartel do século XIX, conquanto Jane Austen, cujo irmão era o capelão da família, fosse correspondente de Frances Talbot, primeira mulher de John Parker, a quem chegou a ser atribuída a autoria de ambas as obras, inicialmente publicadas anonimamente.

Mas é difícil supor que o Theatre Royal se localizasse na Saltram House; digo que é difícil supor, porque, não obstante os muitos contactos que efectuei nesse sentido, não me foi possível apurar a localização precisa do teatro. Infelizmente, contactos que estabeleci, quer com o actual Theatre Royal, quer com a Plymouth Local Studies Library, revelaram-se infrutíferos. As duas instituições informaram não dispor de registos da época, tendo a última, inclusivamente, acrescentado: "We do not have any Plymouth Newspapers dating back to 1828, and our collection of posters and playbills also starts from a much later date. There is no published history of the theatre either, so it appears that no records have survived from this period."

Segundo os relatos dos emigrados portugueses que a ele aludiram, tratar-se-ia de um teatro de dimensões bastante razoáveis, que dificilmente caberia na Saltram House; tampouco há notícia de ter existido algum teatro no seu interior, podendo, quanto muito, aventar-se a hipótese da representação ter ocorrido no anfiteatro que fica junto ao lago Laira — ou Lary — localizado na propriedade, e que se forma a partir do estuário do rio Plym.

Por outro lado, asseveram os mesmos autores, que o teatro distava, na geografia de então, poucas milhas de Plymouth. Dado que a Saltram House fica actualmente localizada a três milhas da cidade, fui inicialmente tentado a supor que o Theatre Royal deveria ter-lhe sido contíguo, posição, aliás, que defendi, erradamente, na comunicação apresentada há meses na Maia. Com efeito, depois de ter reflectido bastante sobre o assunto, conclui que o meu raciocínio incorrera no "pecado" — cómodo, sem dúvida — de anacronismo: o teatro ficava, efectivamente, localizado a escassas milhas de Plymouth em 1828, pelo que, passados quase dois séculos — partindo do pressuposto que a cidade cresceu tanto quanto qualquer outra cidade da Inglaterra —, Plymouth se estendeu muito para além deste.

Tudo indica, pois, que o Theatre Royal sito em George’s Place, ao tempo pertencente a John Parker, e que foi desenhado, no início do século XIX, pelo arquitecto John Foulston, Esq., é o antepassado remoto do actual Plymouth Theatre Royal Ltd — reaberto em 1983 — e que se encontra primorosamente retratado por White, em 1850 History: Gazetter and Directory of Devonshire:

The Royal Hotel and Theatre form an extensive and elegant fabric, which was finished in 1813, at the cost of about £60,000 […]. The north front is 270 feet long, and has in the centre a magnificent portico of the Ionic order, under which are the entrances to the boxes, and to the great hall and staircase of the assembly rooms. The Theatre is spacious and elegant; and the principal supports and framework of the boxes, and all the interior partitions, are of cast iron, and the roof of wrought iron. The proscenium is formed by four beautiful marble columns, with gilt bases and capitals, supporting an elegant entablature, from which rises an arch richly empanelled.

Boringdon, à imagem do que fez Lord Holland em Londres, parece ter, senão apoiado, pelo menos simpatizado com a causa liberal portuguesa. Ambos eram "Whig" com assento na House of Lords, e ambos se opuseram, tal como Palmerston ou Sir James Mackintosh, à política externa de Wellington, pelo menos no que respeita à questão portuguesa. Assim, não é de estranhar que Boringdon — cuja influência se estendia à própria família real inglesa (é de salientar que o Rei George III e a Rainha Charlotte foram seus hóspedes na Saltram House em 1788 ou 89) — tivesse arrendado o seu teatro a um grupo de exilados políticos portugueses maltrapilhos, a fim de aí representarem o seu Catão, isto numa época em que a opinião pública britânica não via, ainda, com bons olhos a causa dos liberais portugueses.

A ideia de produzir um espectáculo em Plymouth, surge por ocasião da chegada da jovem Infanta D. Maria da Glória a Inglaterra, mais precisamente ao porto de Falmouth, pelas nove horas da manhã do dia 24 de Setembro de 1828. Leia-se em Joaquim da Silva Maia, o entusiasmo dos exilados: "Apesar da sua falta de meios, abrirão huma subscrição entre si, e alguns amigos; construiram no barracão hum scenario…" Aí representaram a comédia Elvira, a que se seguiram outras variedades: récitas musicais, declamações de poesia, etc., experiência gozou de tanto êxito, que foi repetida nos dois dias seguintes, e talvez por isso mesmo, Cândido José Xavier, director do Depósito Geral de Plymouth, "…teve a fraqueza, no terceiro dia, de prohibir a peça, e fechar o theatro…" Esta informação é confirmada pelo próprio Cândido Xavier, em um ofício dirigido ao Marquês de Palmela, embaixador de D. Pedro em Londres:

Os voluntarios pedirão-me licença para representarem hum elogio e huma pessa, no Quartel, onde, pela sua industria, arranjárão elles mesmos tudo. Hoje acabarão as tres noutes, e[m] que lhes permitti esse divertimento. Tudo, ate aqui, se tem passado na maior satisfação, e tranquilidade.

É que o ânimo dos refugiados portugueses — há meses amontoados em miseráveis barracões à beira-mar, ou simplesmente apinhados em paquetes sem as mínimas condições de higiene — foi subitamente levantado por esta experiência teatral — ou porque esta tivesse enchido "…os emigrados de patrióticos alentos e de compensações clássicas aos vexames do despotismo", ou, simplesmente, por ter sublimado a dor e o sofrimento de muitos meses de desterro —, o que levou Cândido Xavier a pôr cobro ao novo entretenimento dos emigrados, ou porque lhe convinha manter certa apatia entre os subalternos, ou até por recear algum levantamento. É que o Catão, lembra Paulo Midosi (Júnior), "…associa-se a uma grande epopeia nacional, e tem por fim recordar as ultimas agonias de uma das republicas da antiguidade mais solidamente constituidas", e que, por conseguinte, podia bem inflamar excessivamente os ânimos de milhares de homens, há meses em situação desesperada.

Face a esta impopular decisão de Cândido Xavier, decidem os emigrados alugar o Theatre Royal a John Parker, para aí representarem o seu Catão, acrescentando Teófilo Braga, "…para distrahirem-se…" Estava-se em 24 de Outubro de 1828.

Da representação do Catão

Quanto à representação propriamente dita, pouco se sabe, à excepção de algumas descrições avulsas e sumaríssimas, sendo a mais completa — e porventura mais fiável — a que Carlos Estorninho estabelece a partir da informação recolhida no já referido texto enigmática de Peter Davey:

During the performance the death of the usurper Miguel announced. Frantic exhitement and ‘Vivas’ etc.. The Portuguese constitutional hymn sung followed by ‘God Save the King’.

Davey refere-se, obviamente, à representação de 1 de Dezembro, conquanto tenha sido nesta que a anunciação da morte do infant térrible Miguel, como já vimos, teria ocorrido.

Há, ainda, uma passagem do já citado artigo do Almanach Insulano, que descreve o ambiente vivido durante a representação do Catão, mas que pelas razões já aduzidas e outras que referirei adiante, não merece grande confiança:

…o desempenho da recita foi primoroso. As palmas e bravos ressoavam na sala, mostrando as pessoas que assistiam ao espectaculo querer fazer sobresahir, como á perfia, o enthusiasmo e prazer com que exaltavam e applaudiam o talento dramatico dos curiosos actores…

Do Público do Catão

Relativamente ao público que assistiu às representações do Catão, as informações disponíveis são igualmente escassas e pouco precisas. O artigo do Almanach Insulano, fornece-nos uma longa lista de nomes de individualidades que teriam estado presentes na hipotética representação de Janeiro de 1829:

A par d’Almeida Garrett, a quem nesta narrativa cumpre prestar a primeira homenagem, via-se o grande general conde de Villa Flor. No mesmo banco com José Estevão e major Menezes commandante dos voluntarios, estavam sentados Passos Manoel, e Passos José. Alli se viam Alexandre Herculano, José da Silva Carvalho, Joaquim Antonio d’Aguiar, Marquez de Loulé, Balthasar d’Almeida Pimentel, Simão José da Luz, coronel Xavier, Bernardo de Sá Nogueira, Luiz da Silva Mouzinho d’Albuquerque, Candido José Xavier, Agostinho José Freire, Luiz Pinto de Mendonça Arraes, Antonio Cesar de Vasconcellos Correa, José Maria Baldy, marquez de Ficalho, major Pacheco, Julio Gomes da Silva Sanches, Julio Maximo de Oliveira Pimentel, D. Carlos Mascarenhas, general Pisarro, Joaquim Bento Pereira, João Nepomeceno de Lacerda, Vellez Caldeira, Januario Vicente Camacho, José Victorino Damasio, Joaquim Antonio de Magalhães, Antonio Cabral de Sá Nogueira, Bartholomeu dos Martires, e outros mais que não occorrem de momento á nossa reminiscencia.

A ser verdade o que se lê nesta lista — que duvido —, estaríamos, porventura, perante o maior "happening" do liberalismo português de sempre; o problema é que, pelo menos, quatro dos indivíduos mencionados não poderiam ter estado presentes, o que, mais uma vez, faz levantar sérias dúvidas acerca da autenticidade das informações prestadas no artigo: refiro-me a Joaquim António Magalhães e a Luís Mousinho de Albuquerque, que haviam já partido para o Brasil, a Alexandre Herculano, que só iria para o desterro — inicialmente para Plymouth e depois para França —, em Agosto ou Setembro de 1831, e a Cândido José Xavier, que, pelo menos há data da segunda representação do Catão no Theatre Royal, havia já sido destituído do cargo de director do Depósito Geral de Plymouth, como nos informa Joaquim da Silva Maia: "…retirando-se para Londres C. J. Xavier, donde não voltou mais a Plymouth, e foi substituido pelo General Stubbs", sendo que este último nem sequer consta do role, e que, segundo a atrás citada notícia d’ O Portuguez Emigrado, também teria assistido à peça.

Referindo-se aos dois artigos de 1881, "Escavações" e "Annotações", Amorim queixa-se das mesmas "fífias", já que "Não podiam ter assistido a ella Candido José Xavier […] Joaquim Antonio de Magalhães […] Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque […] e Alexandre Herculano". Por isso, face a tanta e tamanha "calinada" e "fífia", os artigos citados não servem de fonte de investigação; pelo contrário, têm sido responsáveis pela proliferação de uma série de imprecisões e erros grosseiros.

Do que não restam dúvidas, é que entre a assistência, maioritariamente constituída por emigrados portugueses, contava-se também um número apreciável de ingleses, entre os quais poderiam ter estado homens ilustres da vida pública britânica, como veremos adiante. Diz-nos Nemésio, que a peça foi muito aplaudida, "…but not understood, por algumas famílias de Plymouth, contempladas para esse efeito com algumas amáveis borlas…"

É que o Catão foi criteriosamente escolhido — e acertadamente — não só pelo incontestável e reconhecido mérito do autor, "…mas tambem por ser mais acessível de comprehender pelo publico britanico…", conquanto tenha sido inspirado no Cato de Addison.

Subjaz, pois, a ideia de que a escolha da tragédia tenha sido também uma manobra de reflectido charme diplomático, que tinha por alvo a opinião pública britânica, ainda desfavorável à causa liberal portuguesa. E isto não só pelo facto de Garrett ser já sobejamente conhecido nas altas esferas da sociedade londrina — quer nos meios culturais, quer nos círculos estritamente políticos —, mas, sobretudo, pela circunstância do Catão assumir, naquele contexto sócio-político, metáfora viva dos vetustos laços de amizade entre as duas nações, subentendendo-se, pois, claro apelo ao auxílio da Grã-Bretanha à causa da Jovem Rainha, também ela proscrita, e que tardava em chegar.

Senão vejamos: como se explicariam — a par das tais famílias de Plymouth, os "locals", "…os Tikenesses, Heydens, e outros muitos…", entre os quais o cirurgião Richard Freeman, Mayor de Plymouth, que, segundo Joaquim da Silva Maia, "…era hum que lá comparecia…" e, claro está, Lord Boringdon — presenças de homens ilustres da mais alta sociedade britânica, nomeadamente Lord Holland, Lord Palmerston e Sir James Mackintosh? É que segundo a Professora Ofélia Paiva Monteiro, existe no Espólio literário de Garrett (Ms. 117), um conjunto de notas breves que o próprio autor designou de "Literatura anglo-portuguesa", entre as quais escreve, após alusão à representação do Catão em Plymouth: "Lord Holland — Palmerston — Mackintosh — Palmela", o que leva a supor que estes homens poderiam ter assistido à peça ou, quanto muito, teriam sido convidados.

Não é, pois, de estranhar, que, por detrás de inócua representação de teatro amador, levada à cena por pobres exilados à míngua, estivessem objectivos políticos e diplomáticos bem concretos, que poderão bem ter estado na origem, pelo menos em parte, do excesso de zelo de Cândido José Xavier, "cão-de-fila" do Marquês de Palmela.

Conclusão

Termina aqui esta breve exposição monográfica acerca da representação do Catão no Theatre Royal de Plymouth em 1828, e das controvérsias que esta tem gerado, ficando, contudo, ainda por fazer uma biografia dos exílios de Almeida Garrett na Inglaterra, que os saiba relatar com pormenor, e às actividades políticas, sociais e literárias que desenvolveu nesses períodos, como está, aliás, por fazer uma história da emigração política portuguesa para a Grã-Bretanha na primeira metade do século XIX.

Mas não foi meu propósito empreender tão arrojado mister; se a presente comunicação contribuiu, ainda que modestamente, para o esclarecimento de algumas dúvidas relativamente à representação do Catão em Plymouth, terá já bem valido a pena a minha participação nestas "Jornadas Garrettianas".

Lisboa, 1 de Outubro de 1999

José Baptista de Sousa

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