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MAP Como foi o episódio da «Nau Catrineta»?
Havia em minha casa uma criada, chamada Laura, de quem eu gostava muito. Era uma mulher jovem, loira, muito bonita. A Laura ensinou-me a «Nau Catrineta» porque havia um primo meu mais velho a quem tinham feito aprender um poema para dizer no Natal e ela não quis que eu ficasse atrás... Mas há mais encontros, encontros fundamentais com a poesia: a recitação da Magnífica, nas noites de trovoada, por exemplo. Quando éramos um pouco mais velhos, tínhamos uma governanta que nessas noites queimava alecrim, acendia uma vela e rezava. Era um ambiente misto de religião e magia... E de certa forma nessas noites de temporal nasceram muitas coisas. Inclusivamente, uma certa preocupação social e humana ou a minha primeira consciência da dureza da vida dos outros, porque essa governanta dizia: «Agora andam os pescadores no mar, vamos rezar para que eles cheguem a terra.» E essa sensação dos homens, nos barcos, a lutar contra uma tempestade de que os ecos... Batiam as janelas, as portadas de madeira. Havia temporais terríveis nesse tempo! Eu vivia no Porto, para os lados do mar, num sítio chamado Campo Alegre, e chegavam-nos os ventos do mar, o vento Sul, e as portadas batiam, às vezes abria-se uma janela de par em par e tinha-se a impressão visual, dentro de casa, de um mar completamente louco, em que os barcos... E essa visão do pescador que tinha de chegar à praia e podia ser devorado pelas ondas... E ao mesmo tempo as palavras da Magnífica criavam uma espécie de espaço de salvação e de esplendor no meio do temporal, no meio do caos...
JCV Gostaria, era que me falasse mais da sua paixão por Camões e por Antero, de quando os começou a ler...
Ler não, que ainda não sabia. Aprendi versos de cor, sem saber ler.
JCV Então isso não foi só com a «Nau Catrineta»?
Não, entre os três e sete anos o meu avô, que dizia muito bem, ensinou-me Camões e Antero.
JCV E sabia poemas de cor nessa idade?
Sabia, sabia. O «Sete anos de pastor Jacob servia» do Camões, «Num sonho todo feito de incerteza», do Antero, também algumas coisas do António Nobre, como «Oh Virgens que passais ao sol poente»... E achava lindo! As crianças compreendem e amam muito mais as coisas do que os adultos imaginam.
JCV Isso teve influência na sua poesia?
Teve influência na minha poesia e teve influência na minha noção da poesia, que deriva muito de eu ter sabido poemas mesmo antes de saber que havia a literatura e história da literatura, de não ter tido (como é que hei-de explicar?) de não ter tido uma relação escolar e sábia com a poesia, mas uma relação vital.
JCV O seu pai estava também ligado à alta burguesia do Porto.
Mas era uma pessoa muito original. O que gostava era de caçar, da natureza, dos jardins e dos cães.
MAP Eduardo Lourenço diz de si que há «nomes predestinados»: «Sophia – sabedoria mais funda que o simples saber, conhecimento íntimo, ao mesmo tempo atónico e luminoso do essencial»... A Sophia tem consciência de saber algo de «essencial»?
Diziam-me quando eu era pequena que queria dizer «sagesse» e eu não gostava dessa tradução do meu nome. «Sagesse» queria dizer, para mim, ser uma criança muito ajuizada, muito bem comportada, muito sensata — coisas que eu não achava nada desejáveis... Se eu sei alguma coisa? Não sei, talvez saiba de uma maneira muito especial. Se sei está na minha poesia. A máscara é a forma de alguém dizer o que é.
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Sophia com o avô Thomaz de Mello Breyner.
Lisboa 14 Julho 1926 |
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Sophia com os irmãos: Tomás, Gustavo e João Henrique |
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